Palestra magna do Congresso Acadêmico Sindical da FMB alerta para depressão, ansiedade, burnout e uso de substâncias entre estudantes e defende mudanças institucionais na formação médica
A saúde mental dos estudantes de Medicina não pode ser tratada apenas como uma questão individual. O ambiente de formação, a sobrecarga, a pressão por desempenho e a naturalização do sofrimento também precisam entrar nessa discussão. A reflexão marcou a palestra magna “Saúde mental dos estudantes de medicina: a influência na formação do futuro médico”, ministrada pela Dra. Cláudia Paola Carrasco Aguilar, médica de família e comunidade, psiquiatra, diretora de Educação Médica e Formação Profissional da Federação Médica Brasileira (FMB) e secretária-geral do Sindicato dos Médicos no Estado do Paraná (SIMEPAR).
Números que exigem atenção
Cláudia apresentou estudos que dimensionam a gravidade do problema. Segundo os dados levados à palestra, a prevalência estimada de depressão entre estudantes de Medicina no Brasil é mais que o dobro da encontrada na população em geral. Quase metade relata estresse e má qualidade do sono e a ideação suicida alcança 11% dos estudantes.
Também chamou atenção para comportamentos utilizados como tentativa de lidar com a pressão. Estudos apresentados apontam consumo problemático de álcool e uso de estimulantes como metilfenidato e lisdexanfetamina. Em um dos levantamentos citados, 33% dos estudantes pesquisados consumiam estimulantes, sendo que 70% deles não possuíam diagnóstico de TDAH e 60% utilizavam essas substâncias sem prescrição médica.
Para a psiquiatra, esses números não podem ser interpretados isoladamente. “Não são anomalias estatísticas. É o sintoma de uma estrutura da formação da Medicina que adoece”, afirmou.
Um ciclo de estresse que começa cedo
A palestra percorreu as diferentes etapas da formação para mostrar como a sobrecarga pode se acumular.
Já nos primeiros anos surgem desafios como a transição para um modelo de aprendizagem com maior autonomia, a síndrome do impostor, o afastamento da família e a necessidade de construir novos vínculos. Muitos estudantes também deixam suas cidades para cursar Medicina e precisam lidar simultaneamente com solidão, responsabilidades da vida adulta e exigências acadêmicas.
Com a aproximação do internato, aparecem novos fatores: medo de não estar preparado, receio de errar, aumento da responsabilidade e jornadas que precisam ser conciliadas com outras atividades.
Na residência médica, o cenário pode se agravar. Cláudia destacou que essa é uma das etapas com maior ocorrência de burnout, diante de jornadas extensas e, em alguns casos, da necessidade de conciliar a residência com plantões adicionais.
Quando o sofrimento passa a ser normalizado
Outro ponto abordado foi o chamado “currículo oculto” da Medicina: comportamentos e valores transmitidos ao longo da formação mesmo sem fazerem parte oficialmente do conteúdo acadêmico.
Entre eles está a ideia de que dormir pouco demonstra comprometimento, admitir sofrimento representa fraqueza, procurar ajuda pode prejudicar a credibilidade e errar deve gerar vergonha, em vez de aprendizado.
Esse ambiente pode atrasar a procura por atendimento profissional e estimular a automedicação.
Cláudia alertou ainda que o sofrimento não ocorre da mesma forma para todos. Condições socioeconômicas e diferentes contextos individuais e sociais podem acrescentar novas camadas de vulnerabilidade, exigindo políticas de prevenção e acolhimento capazes de considerar essas diferenças.
Dos dados para a ação
Mais do que apresentar um diagnóstico, a palestrante propôs caminhos concretos para acadêmicos, Núcleos Acadêmicos e sindicatos.
Uma das propostas é produzir dados sobre a saúde mental dos próprios estudantes, criando linhas de pesquisa que avaliem burnout, estresse, consumo de álcool, uso de medicamentos e outros indicadores. Evidências científicas podem dar força às reivindicações por mudanças dentro das instituições.
Também defendeu a construção de alianças entre estudantes, sindicatos, associações, cooperativas, conselhos e outras entidades médicas, além da ocupação dos espaços institucionais onde decisões são tomadas.
Para os sindicatos, Cláudia propôs incorporar a saúde mental à proteção laboral, inclusive com indicadores mensuráveis e cláusulas específicas nas negociações de trabalho.
Médicos aprendem a cuidar, mas também precisam aprender a pedir ajuda
Ao encerrar, Cláudia chamou atenção para uma contradição da própria formação: a Medicina prepara profissionais para identificar sinais de adoecimento nos pacientes, enquanto muitas vezes ensina esses mesmos profissionais a ignorar seus próprios sinais de alerta.
Transformar essa realidade, segundo ela, exige organização, evidências, participação institucional e persistência.
“A mudança não vai surgir do nada. Vai surgir do nosso movimento, do caminhar e do fazer o caminho.”
A II Jornada Científica integra a programação do III Congresso Acadêmico Sindical da Federação Médica Brasileira, realizado nos dias 14 e 15 de agosto de 2026, em Curitiba, no Paraná. O evento é organizado em parceria com o SINDMEPA.
