Dra. Cláudia Paola Carrasco Aguilar
médica psiquiatra; diretora de Educação Médica e Formação Profissional da Federação Médica Brasileira (FMB) e secretária-geral do Sindicato dos Médicos no Estado do Paraná (SIMEPAR)
Durante o III Congresso Acadêmico Sindical da Federação Médica Brasileira (FMB), em agosto de 2026, em Curitiba, apresentei dados que precisam servir de alerta, especialmente neste Setembro Amarelo. Se queremos médicos preparados para cuidar da vida, precisamos cuidar da saúde mental deles desde a formação.
A prevalência estimada de depressão entre estudantes de Medicina no Brasil chega a 30,6%. Quase 50% relatam estresse e má qualidade do sono. E a prevalência global de ideação suicida é de 11,1%. Esses números não podem ser tratados como problemas individuais ou como algo “normal” da Medicina. Eles revelam uma estrutura formativa que precisa ser revista.
O sofrimento pode começar já nos primeiros anos. A mudança de cidade, o afastamento da família, a necessidade de construir novos vínculos, a cobrança por desempenho e a chamada síndrome do impostor podem intensificar ansiedade e sintomas depressivos. No internato, somam-se o medo de errar e a responsabilidade sobre o paciente. Na residência, jornadas extensas e sobrecarga aumentam ainda mais o risco de burnout.
Outro dado preocupante envolve o uso de estimulantes. Entre estudantes que utilizavam metilfenidato ou lisdexanfetamina, 70% não tinham diagnóstico de TDAH, 60% usavam sem prescrição e 61% buscavam melhorar o desempenho acadêmico. Muitas vezes, a automedicação aparece como tentativa de suportar uma pressão que já ultrapassou o limite saudável.
Também precisamos reconhecer que a saúde mental não é neutra. Raça, gênero, orientação sexual, neurodivergência e condição econômica criam vulnerabilidades adicionais. Entre as mulheres, por exemplo, estudos apresentados apontaram prevalência de 33,5% de depressão, contra 19% nos homens.
No Setembro Amarelo, o dado mais grave não pode ser ignorado: 11,1% dos estudantes de Medicina apresentam ideação suicida. Depressão, ansiedade, burnout, estresse e histórico psiquiátrico prévio aparecem entre os principais fatores de risco. Entre médicos e estudantes, conhecimento farmacológico e acesso a medicamentos podem ainda aumentar a letalidade de uma tentativa.
Por isso, precisamos romper com o “currículo oculto” que ensina que dormir pouco é comprometimento, que pedir ajuda é fraqueza e que sofrer faz parte da profissão. Essa cultura atrasa a busca por tratamento, estimula automedicação e ensina o futuro médico a ignorar os próprios limites.
Prevenção exige dados, redes de apoio, políticas institucionais e responsabilidade compartilhada entre faculdades, estudantes, professores, sindicatos e entidades médicas. Não podemos esperar alguém chegar ao limite para agir.
Como destaquei no Congresso: “A medicina forma profissionais ensinando-os a ignorar seus próprios sinais de alerta — os mesmos que serão fundamentais para cuidar de outros.”
Quem escolheu cuidar da vida também precisa ser cuidado. E esse cuidado precisa começar na formação.
