Por Dra. Cláudia Beatriz Câmara de Andrade Silva, médica ginecologista e obstetra, diretora do Sindicato dos Médicos de Pernambuco e vice-presidente do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco
A medicina brasileira alcançou um marco histórico. As mulheres já representam a maioria dos médicos em atividade no país, ocupando espaços cada vez mais relevantes na assistência, na gestão e na produção científica. No entanto, esse avanço numérico não foi acompanhado pela transformação das estruturas de trabalho, criando um cenário preocupante para a saúde física das médicas.
Ao longo da carreira, muitas profissionais enfrentam jornadas extensas, múltiplos vínculos de trabalho, plantões sucessivos, responsabilidades familiares e uma constante cobrança por desempenho. O resultado é um modelo que frequentemente exige da médica disponibilidade permanente, enquanto o autocuidado é adiado para um momento que quase nunca chega.
Um dos dados mais alarmantes aponta que médicas podem viver, em média, até uma década menos que a população feminina geral. Entre os fatores associados estão o burnout, a sobrecarga de trabalho, a negligência com a própria saúde, a exposição à violência ocupacional e a dificuldade de conciliar carreira e vida pessoal.
A maternidade é um dos pontos onde essas tensões se tornam mais evidentes. A longa formação médica frequentemente interfere na janela reprodutiva, levando muitas mulheres a adiarem ou até renunciarem ao projeto de maternidade. Mesmo quando os direitos legais existem, como licença-maternidade e amamentação, sua aplicação prática nem sempre encontra respaldo adequado nas instituições de saúde.
Outro aspecto preocupante é a postergação dos próprios cuidados médicos. Não são raros os casos de médicas que deixam de realizar consultas e exames periódicos por falta de tempo ou excesso de compromissos profissionais. Essa realidade contribui para o diagnóstico tardio de doenças como câncer de mama, câncer do colo do útero, câncer colorretal e doenças cardiovasculares, reduzindo as chances de tratamento precoce e melhores resultados.
A precarização dos vínculos de trabalho também agrava o problema. Modelos baseados na pejotização frequentemente transferem riscos para a profissional, reduzindo garantias relacionadas à maternidade, à estabilidade e à proteção previdenciária. Isso amplia a vulnerabilidade justamente em períodos de maior necessidade de suporte.
É fundamental compreender que a saúde da mulher médica não depende apenas de escolhas individuais. Embora hábitos saudáveis, acompanhamento médico regular e limites na carga de trabalho sejam importantes, a solução exige mudanças institucionais. Ambientes seguros, combate à violência, respeito aos direitos trabalhistas e políticas efetivas de acolhimento são medidas indispensáveis.
Cuidar da médica é cuidar da medicina. Um sistema de saúde sustentável depende de profissionais saudáveis, respeitadas e protegidas. Afinal, quem dedica a vida a cuidar dos outros também precisa ter garantido o direito de cuidar de si.
