Por Dra. Walnéia Cristina de Almeida Moreira, médica do Trabalho, diretora administrativa do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais e conselheira do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais
A medicina brasileira vive uma transformação histórica. Pela primeira vez, as mulheres representam a maioria dos médicos em atividade no país, respondendo por 50,9% da força de trabalho médica. Esse avanço é motivo de celebração, mas também exige uma reflexão necessária: as estruturas de trabalho acompanharam essa mudança? Os dados mostram que não.
É nesse contexto que surge o chamado “paradoxo do silêncio”. Enquanto cresce a participação feminina na medicina, também aumentam os índices de adoecimento físico e mental entre as médicas. Trata-se de uma realidade muitas vezes invisível, escondida atrás da cultura de resiliência e da expectativa de que o médico esteja sempre disponível para cuidar dos outros.
As mulheres médicas enfrentam desafios específicos que vão além da prática profissional. A dupla jornada, que combina a atividade médica com responsabilidades domésticas e familiares, continua sendo uma realidade para grande parte dessas profissionais. Soma-se a isso a exposição a desigualdades de gênero, assédio moral e sexual, além da necessidade constante de equilibrar maternidade, carreira e qualificação profissional.
Os impactos são preocupantes. Estudos apontam prevalências elevadas de burnout, ansiedade, depressão e outros transtornos mentais entre médicas. Durante a pandemia, por exemplo, os índices de burnout chegaram a superar 60% em determinados grupos. Além do sofrimento individual, esse adoecimento repercute diretamente na assistência à população, contribuindo para o aumento de erros, redução da qualidade do atendimento, absenteísmo e até abandono da profissão.
Outro fator que agrava esse cenário é a crescente precarização dos vínculos de trabalho. A redução dos contratos formais e o avanço da pejotização impactam especialmente as mulheres, fragilizando direitos relacionados à maternidade, estabilidade profissional e segurança financeira.
É fundamental compreender que esse adoecimento não é resultado de fragilidade individual. Trata-se de um fenômeno estrutural, decorrente de condições organizacionais e sociais que precisam ser transformadas. Programas de bem-estar, combate efetivo ao assédio, escalas mais previsíveis, controle da carga horária e suporte à maternidade são medidas indispensáveis para construir ambientes de trabalho mais saudáveis.
Cuidar da saúde da mulher médica não é apenas uma questão de justiça ou valorização profissional. É uma necessidade para a sustentabilidade do próprio sistema de saúde. Afinal, uma medicina forte depende de profissionais que também tenham condições de cuidar de si mesmas.
