Dra. Andréa Lúcia Rezende Martins Donato, diretora de Saúde Suplementar do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais
A saúde suplementar ocupa um papel fundamental no sistema de saúde brasileiro. Responsável pela assistência de cerca de 55 milhões de pessoas, ela movimenta recursos expressivos e representa uma das principais portas de acesso aos serviços de saúde no país. No entanto, por trás dos números e dos resultados assistenciais, existe uma realidade que precisa ser debatida com mais profundidade: as condições de trabalho dos médicos que sustentam esse sistema.
Nos últimos anos, a relação entre médicos e operadoras de planos de saúde tornou-se cada vez mais complexa. Diferentes modelos de contratação foram incorporados ao mercado, incluindo remuneração por procedimento, contratos baseados em metas, contratação por pessoa jurídica e modelos híbridos. Embora algumas dessas modalidades tenham surgido com a proposta de modernização, muitas delas acabaram transferindo para o médico parte significativa dos riscos econômicos da assistência.
A consequência é um cenário marcado por insegurança profissional, perda de autonomia e fragilização das relações de trabalho. Glosas, atrasos nos pagamentos, negativas de procedimentos previamente autorizados e dificuldades para contestação são problemas frequentemente enfrentados pelos profissionais. Em muitos casos, o médico realiza o atendimento sem a garantia efetiva de que receberá integralmente pelo serviço prestado.
Ao mesmo tempo, observa-se um aumento contínuo do número de médicos no mercado, associado a jornadas exaustivas e à crescente pressão por produtividade. Dados apresentados no estudo demonstram que muitos profissionais trabalham entre 13 e 14 horas por dia para manter uma remuneração compatível com os custos de formação, atualização profissional e manutenção da atividade médica.
É importante reconhecer que a sustentabilidade da saúde suplementar depende de uma relação equilibrada entre todos os atores envolvidos. Não há assistência de qualidade sem profissionais valorizados. Por isso, é fundamental fortalecer mecanismos de negociação, ampliar a transparência contratual, garantir reajustes compatíveis com a realidade do setor e assegurar maior participação dos médicos nos processos regulatórios.
A valorização do trabalho médico não é uma pauta corporativa. Trata-se de uma condição indispensável para preservar a qualidade assistencial, garantir segurança aos pacientes e construir um sistema de saúde suplementar mais justo, sustentável e eficiente para toda a sociedade.
