Experiência pioneira aproxima estudantes do mundo do trabalho, das entidades médicas e da defesa profissional ainda durante a graduação
A formação médica precisa ir além do domínio técnico-científico. Conhecer contratos, direitos profissionais, relações de trabalho, responsabilidade civil, previdência, políticas de saúde e o papel das entidades representativas também é fundamental para preparar o futuro médico para a realidade da profissão.
Essa foi a discussão central da mesa “A experiência da Juventude Sindicalista: o case do SINDMEPA”, realizada durante o III Congresso Acadêmico Sindical da Federação Médica Brasileira (FMB), em Curitiba (PR).
Participaram do debate o Dr. Paulo Tomé de Lima Bronze, diretor de Acadêmicos da FMB e diretor do Sindicato dos Médicos do Pará (SINDMEPA); o Dr. Waldir Araújo Cardoso, diretor de Relações Internacionais da FMB e diretor Médico do Núcleo Acadêmico do SINDMEPA; e Sarah Farias Câmara, acadêmica de Medicina da Universidade Federal do Pará (UFPA) e diretora-geral do Núcleo Acadêmico do SINDMEPA.
Formação médica para além do conhecimento técnico
Em sua apresentação, Paulo Bronze destacou uma lacuna que acompanha muitos estudantes durante a graduação: enquanto as escolas médicas concentram a formação no diagnóstico e no tratamento, temas diretamente relacionados ao exercício profissional ainda são pouco discutidos.
Contratos de trabalho, responsabilidade civil, negociação profissional, previdência, organização sindical, mercado de trabalho e defesa institucional da Medicina estão entre os conhecimentos que, muitas vezes, o médico passa a adquirir somente depois de formado.
Segundo Bronze, essa desconexão pode deixar os jovens profissionais mais vulneráveis diante de vínculos precários, da pejotização indiscriminada e da insegurança jurídica. É justamente nesse espaço que o Núcleo Acadêmico do SINDMEPA procura atuar, aproximando os estudantes da realidade profissional antes mesmo da obtenção do CRM.
A experiência é baseada no princípio de “aprender fazendo”. Os acadêmicos acompanham reuniões de diretoria, assembleias, negociações com gestores, visitas técnicas a unidades de saúde, debates jurídicos, atividades científicas e discussões sobre políticas sindicais.
O projeto também desenvolve cursos e oficinas sobre trabalho médico, mercado de trabalho, tributação, contratos, liderança, gestão em saúde, SUS, saúde suplementar, ética e defesa profissional.
De acordo com os dados apresentados por Bronze, ao longo de aproximadamente seis anos, mais de 500 acadêmicos já estiveram vinculados ao Núcleo Acadêmico, experiência que também contribuiu para aproximar universidade e sindicato, estimular a produção científica e preparar novas lideranças.
Uma história construída com autonomia dos estudantes
Waldir Araújo Cardoso resgatou a trajetória do projeto, iniciada em 2018. O processo envolveu desde a criação de uma categoria específica para acadêmicos até uma mudança no estatuto do SINDMEPA, registrada em 2019, permitindo que estudantes de Medicina se tornassem associados à entidade.
Um dos diferenciais, segundo ele, foi permitir que os próprios acadêmicos participassem da construção do Núcleo, elaborando seu regimento, os processos de seleção e a organização das atividades.
A experiência mostrou que não basta criar um espaço destinado aos estudantes. É necessário oferecer autonomia, estabelecer uma relação de confiança e contar com dirigentes dispostos a ouvir uma geração que possui outras formas de organização, comunicação e participação.
Para Waldir, os acadêmicos precisam se reconhecer como parte efetiva da entidade. O objetivo não é apenas aproximá-los do sindicato no presente, mas preparar aqueles que poderão assumir responsabilidades no movimento médico no futuro.
“Aqui surge a continuidade do sindicalismo”
Sarah Farias Câmara trouxe para a mesa a perspectiva de quem vivencia esse modelo na prática.
A acadêmica mostrou como o Núcleo passou a ocupar diferentes espaços de formação, representação e participação social. Seus integrantes acompanham reuniões com gestores, fiscalizações em unidades de saúde, conferências e congressos, além de atividades relacionadas às políticas públicas e à defesa da profissão.
A atuação está organizada também a partir do tripé ensino, pesquisa e extensão. Entre as iniciativas desenvolvidas estão cursos de trabalho médico, Libras aplicada à saúde, suporte básico de vida, produção de trabalhos científicos e ações de atendimento em comunidades, com participação de acadêmicos sob acompanhamento médico.
Sarah ressaltou que essa vivência permite ao estudante desenvolver uma formação crítica que dificilmente seria alcançada apenas dentro da sala de aula. O contato direto com os problemas da profissão, com as entidades e com os espaços de decisão ajuda a construir o sentimento de pertencimento e responsabilidade sobre o futuro da Medicina.
A própria realização do Congresso Acadêmico Sindical da FMB foi apresentada como um dos resultados desse movimento. A iniciativa nasceu no Pará, avançou para a Paraíba e, em sua terceira edição, chegou ao Paraná reunindo estudantes de diferentes regiões brasileiras.
Para Sarah, a presença dos acadêmicos nesses espaços representa mais do que participação estudantil: representa a preparação de uma nova geração para assumir o movimento médico. “Aqui surge a continuidade da FMB, aqui surge a continuidade do sindicalismo no Brasil”, destacou durante sua apresentação.
Renovação começa na graduação
As três experiências apresentadas convergiram para uma mesma conclusão: a Medicina do século XXI exige profissionais tecnicamente preparados, mas também capazes de compreender o sistema de saúde, defender condições dignas de trabalho, participar da formulação de políticas públicas e exercer liderança.
Nesse contexto, os Núcleos Acadêmicos surgem como uma ponte entre universidade e vida profissional. Ao inserir o estudante nas discussões sobre o mundo do trabalho e permitir que participe ativamente das entidades médicas, o movimento sindical também prepara sua própria renovação.
A mesa teve como cerimonial a acadêmica Luísa Dobler de Macedo (SC), como presidente a acadêmica Maria Eduarda Italiano (PB) e como relator o acadêmico Paulo Victor de Lima Reis (PA).
A II Jornada Científica integra a programação do III Congresso Acadêmico Sindical da Federação Médica Brasileira, realizado nos dias 14 e 15 de agosto de 2026, em Curitiba, no Paraná. O evento é organizado em parceria com o SINDMEPA.
