Por Dra. Adalgele Rodrigues Blois, médica cardiologista e vice-presidente do Sindicato dos Médicos do Tocantins
A medicina brasileira vive uma transformação histórica. Em 2025, as mulheres passaram a representar a maioria dos profissionais médicos em atividade no país. Esse marco simboliza décadas de luta por acesso à educação, reconhecimento profissional e ocupação de espaços tradicionalmente reservados aos homens. No entanto, os números revelam apenas parte da realidade. A presença feminina cresceu, mas as desigualdades estruturais continuam presentes no cotidiano da profissão.
A história da medicina é marcada por mulheres que desafiaram barreiras sociais e institucionais para exercer a profissão. Hoje, embora tenham conquistado espaço e protagonismo, muitas médicas ainda enfrentam obstáculos relacionados à remuneração, à ascensão profissional e às condições de trabalho. O avanço quantitativo não se traduziu, necessariamente, em equidade.
Entre os principais desafios está a persistência da dupla ou tripla jornada. Além da atuação profissional, muitas mulheres acumulam responsabilidades familiares e domésticas, o que impacta diretamente sua qualidade de vida e sua saúde mental. Estudos apontam maior incidência de transtornos emocionais, esgotamento profissional e redução do bem-estar entre médicas, especialmente nas fases iniciais da carreira.
Outro fenômeno que merece atenção é o chamado “teto de vidro”. Apesar da elevada qualificação técnica e da crescente participação feminina na profissão, as mulheres continuam sub-representadas em cargos de liderança, gestão e tomada de decisão. Barreiras invisíveis, mas persistentes, ainda limitam a ascensão profissional e a ocupação de espaços estratégicos.
A violência e o assédio também permanecem como desafios relevantes. Dados apresentados no estudo indicam que um número expressivo de profissionais de saúde já vivenciou algum tipo de violência no ambiente de trabalho, enquanto muitas médicas relatam experiências de assédio moral e sexual. Essas situações comprometem não apenas a saúde mental das profissionais, mas também a qualidade do ambiente de trabalho e da assistência prestada.
A crescente precarização das relações de trabalho amplia ainda mais esse cenário. Modelos contratuais frágeis, especialmente por meio da pejotização, reduzem garantias trabalhistas, transferem riscos para os profissionais e dificultam o acesso a direitos fundamentais. Para as mulheres, os impactos podem ser ainda mais significativos em momentos como a maternidade e a construção da carreira.
Superar essas desigualdades exige mais do que reconhecer sua existência. É necessário fortalecer sindicatos, entidades médicas e instituições reguladoras, promover transparência salarial, ampliar a participação feminina em posições de liderança, combater o assédio e criar políticas efetivas de apoio à maternidade e à saúde mental.
Garantir equidade de gênero na medicina não é apenas uma questão de justiça. É uma condição indispensável para a valorização da profissão, para a sustentabilidade do sistema de saúde e para a construção de uma assistência mais humana e qualificada para toda a sociedade.
Fonte: AMB
