Expansão de escolas médicas, qualidade da formação, residência, distribuição de profissionais e valorização do trabalho médico estiveram no centro da mesa internacional do Congresso Acadêmico Sindical da FMB
Os desafios da formação médica ultrapassam fronteiras. Embora Brasil, Argentina e Portugal tenham sistemas distintos, os três países enfrentam questões que se encontram em pontos fundamentais: como garantir qualidade na graduação, formar especialistas de acordo com as necessidades da população, distribuir melhor os médicos e oferecer condições de trabalho capazes de manter esses profissionais nos sistemas públicos de saúde.
Essas questões nortearam a mesa internacional “Panorama sobre a evolução histórica da formação médica”, realizada durante o III Congresso Acadêmico Sindical da Federação Médica Brasileira (FMB), em Curitiba.
O debate reuniu a Dra. Julieta Sala, representante da Asociación Sindical de Profesionales de la Salud Provincia de Buenos Aires, da Argentina; a Dra. Joana Savva Bordalo e Sá, presidente do Sindicato dos Médicos do Norte, de Portugal; e o Dr. Fernando Luiz de Mendonça, presidente da Federação Médica Brasileira.
Portugal: formar mais médicos, por si só, não resolve o problema
Ao apresentar a experiência portuguesa, Joana Bordalo e Sá mostrou um modelo em que a formação médica compreende seis anos de universidade, seguida por uma etapa de formação geral e pela especialização, que pode durar entre quatro e seis anos. O ingresso na especialidade ocorre por meio de uma prova nacional competitiva.
Portugal, entretanto, também vive o desafio da expansão da formação e da capacidade do sistema de absorver e manter seus profissionais.
Joana chamou a atenção para um aparente paradoxo: mesmo com o aumento do número de escolas e de médicos formados, o Serviço Nacional de Saúde português continua enfrentando falta de profissionais. Segundo os dados apresentados, 16% da população está sem médico de família.
A situação dos residentes também preocupa. Eles representam cerca de um terço da força de trabalho médica no serviço público português, trabalham em média 53 horas semanais e, conforme apresentado durante a palestra, 54% enfrentam burnout.
Para a dirigente portuguesa, a discussão demonstra que simplesmente aumentar vagas não resolve os problemas assistenciais. É necessário garantir qualidade da formação e, ao mesmo tempo, condições de trabalho e perspectivas de carreira que façam com que os médicos permaneçam no sistema público.
Nesse processo, a atuação sindical ganha papel estratégico. Joana apresentou quatro pilares da atuação do Sindicato dos Médicos do Norte: proximidade, mobilização, negociação e comunicação, ressaltando que os direitos laborais também fazem parte da qualidade da formação médica.
Argentina enfrenta desigualdade na distribuição de médicos
A experiência argentina, apresentada por Julieta Sala, trouxe outro aspecto do problema: a desigualdade territorial.
Apesar de o país possuir uma média de aproximadamente 39 médicos para cada 10 mil habitantes, a distribuição é profundamente desigual. Enquanto a concentração chega a cerca de 165 médicos por 10 mil habitantes na capital federal, regiões mais pobres não alcançam 20.
Julieta também apresentou a evolução do ensino médico argentino e os diferentes modelos de formação existentes no país. Atualmente, convivem currículos tradicionais, com forte influência hospitalocêntrica, e propostas mais recentes baseadas em problemas e com maior aproximação dos estudantes com as comunidades desde os primeiros anos.
A expansão do acesso à graduação também trouxe desafios. Para Julieta, ampliar vagas sem financiamento, estrutura docente e planejamento adequados pode comprometer a qualidade da formação.
Outro ponto de preocupação está na residência médica. Especialidades relacionadas à Atenção Primária à Saúde têm perdido procura, enquanto outras consideradas mais rentáveis atraem maior interesse. Isso contribui para ampliar o descompasso entre a formação dos profissionais e as necessidades sanitárias da população.
A defesa apresentada foi pela retomada do planejamento nacional, com políticas capazes de estimular especialidades estratégicas e melhorar a distribuição territorial dos profissionais.
Brasil: a pergunta não é apenas quantos médicos formar
Ao trazer o cenário brasileiro para o debate, Fernando Luiz de Mendonça propôs uma mudança na pergunta que orienta a discussão nacional: mais importante do que saber quantos médicos o país conseguirá formar é discutir que médicos o Brasil decidiu formar.
O presidente da FMB chamou a atenção para a velocidade da expansão das escolas médicas. Segundo os números apresentados durante a palestra, o país passou de aproximadamente 140 escolas para perto de 500 e de cerca de 13 mil vagas para mais de 50 mil.
Essa expansão, porém, não foi acompanhada na mesma proporção pela residência médica. Fernando apontou a existência de um verdadeiro funil entre o número de estudantes que ingressam na graduação e as oportunidades de formação especializada.
Também destacou a forte desigualdade na distribuição dos profissionais. A existência de mais médicos não significa, necessariamente, que eles estejam onde a população mais necessita. Capitais concentram índices muito superiores aos encontrados no interior dos mesmos estados.
O debate brasileiro passa ainda pela avaliação da formação médica e pela discussão sobre o ENAMED e propostas de exames de proficiência. Para Fernando, entretanto, nenhum exame isoladamente é capaz de resolver todos os problemas.
“Qualidade não é só exame”, ressaltou, ao defender que a discussão envolva também regulação das escolas, capacidade real de formação, residência médica, condições de trabalho e educação ao longo de toda a vida profissional.
Problemas diferentes, desafios que se encontram
As experiências apresentadas mostraram que os três países possuem histórias e modelos próprios, mas compartilham um desafio central: a formação médica precisa estar conectada às necessidades da população e às condições concretas de exercício da profissão.
O debate também reforçou que formação não termina com a universidade. Residência, desenvolvimento profissional contínuo, carreira, condições dignas de trabalho e participação das entidades representativas fazem parte desse processo.
Ao colocar lado a lado Argentina, Portugal e Brasil, a mesa deixou uma questão para acadêmicos, médicos, universidades, governos e entidades: não basta ampliar o número de profissionais. É preciso discutir quem estamos formando, como estamos formando e para qual sistema de saúde esses médicos estão sendo preparados.
A mesa teve como cerimonial a acadêmica Sarah Câmara (PA), como presidente a acadêmica Luiza Daniela de Tolêdo Araújo (PB) e como relatora a acadêmica Maria Eduarda Italiano (PB).
A II Jornada Científica integra a programação do III Congresso Acadêmico Sindical da Federação Médica Brasileira, realizado nos dias 14 e 15 de agosto de 2026, em Curitiba, no Paraná. O evento é organizado em parceria com o SINDMEPA.
