Mesa do Congresso Acadêmico Sindical da FMB reuniu diferentes experiências de representação estudantil e destacou a importância de preparar futuros médicos para compreender também política, mercado de trabalho e defesa profissional
A formação do médico não acontece apenas dentro da sala de aula. Participar de entidades estudantis, compreender as políticas de saúde, conhecer a realidade do mercado de trabalho e ocupar espaços de decisão também contribuem para formar profissionais mais críticos e preparados para os desafios da Medicina.
Essa foi uma das principais reflexões da mesa “A Medicina atual e as entidades de representação estudantil: novos debates e novas perspectivas”, realizada durante o III Congresso Acadêmico Sindical da Federação Médica Brasileira (FMB), em Curitiba.
O debate reuniu os acadêmicos Hugo Coimbra de Oliveira, diretor-conselheiro do Núcleo Acadêmico do SINDMEPA; Sarah Tagore Mendoza Assumpção e Silva, coordenadora Regional Sudeste 2 da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (DENEM); Rafaela Bressas, presidente da Sociedade de Acadêmicos de Medicina de Minas Gerais (SAMMG); e Maria Luiza Gomes, presidente da Associação dos Estudantes de Medicina de Santa Catarina (AEMESC).
Do movimento estudantil ao movimento médico
Hugo Coimbra apresentou um panorama histórico da organização dos estudantes brasileiros, passando pela União Nacional dos Estudantes (UNE), pela DENEM e por diferentes entidades estaduais de representação.
Sua própria trajetória, entretanto, serviu para demonstrar como os sindicatos médicos também podem desempenhar papel importante na formação dos estudantes.
Foi no Núcleo Acadêmico do SINDMEPA que Hugo teve contato com uma realidade profissional muito diferente daquela imaginada por muitos jovens quando ingressam na faculdade. Um dos episódios que mais o marcou ocorreu durante uma mobilização de médicos recém-formados que trabalhavam em UPAs de Belém e estavam há meses sem receber.
O acadêmico participou da manifestação e viu jovens médicos esconderem o rosto atrás de cartazes por medo de represálias enquanto cobravam salários atrasados.
A experiência mostrou que assuntos como vínculos de trabalho, contratos, remuneração, precarização e defesa profissional precisam chegar aos estudantes antes da formatura.
Para Hugo, sindicatos e entidades estudantis possuem formas diferentes, mas complementares, de atuação. Enquanto o movimento estudantil tem forte presença nas discussões sobre educação médica, os sindicatos aproximam o acadêmico da realidade do trabalho.
A questão colocada por ele foi direta: que dirigentes sindicais queremos para a luta por uma Medicina brasileira de qualidade e o que as organizações estão fazendo hoje para promover essa renovação?
Formação médica precisa ultrapassar o conteúdo da graduação
A experiência da SAMMG foi apresentada por Rafaela Bressas. Com mais de três décadas de atuação, a entidade busca representar acadêmicos das escolas médicas de Minas Gerais e ampliar as oportunidades oferecidas durante a graduação.
Entre suas iniciativas estão cursos, estágios extracurriculares, atividades científicas, participação de acadêmicos em congressos médicos e parcerias com sociedades de especialidades e entidades como associação médica, sindicato e conselho profissional.
Para Rafaela, essa aproximação é importante porque o estudante precisa chegar ao mercado sabendo mais do que Medicina. É necessário compreender a realidade profissional, inclusive situações aparentemente simples, como analisar um contrato antes de assiná-lo.
A estrutura da entidade também permite uma renovação constante de lideranças. Os estudantes passam por diferentes funções ao longo da graduação, abrindo espaço para que novos acadêmicos assumam responsabilidades e adquiram experiência em representação.
Estudante não pode ser apenas objeto de avaliação
Sarah Tagore trouxe ao debate a experiência da DENEM e uma reflexão sobre o papel político do movimento estudantil.
Ela relatou que foi ao participar de um encontro da entidade que passou a compreender a saúde para além da propedêutica, das prescrições e do conhecimento estritamente biomédico.
Política, economia, determinantes sociais e políticas públicas também interferem diretamente na saúde dos pacientes e no exercício profissional.
Essa visão levou a acadêmica a questionar o atual debate sobre avaliação da formação médica. Para Sarah, diante das discussões envolvendo ENAMED e exames de proficiência, é necessário perguntar não apenas como avaliar, mas também quem está sendo avaliado.
O desempenho seria responsabilidade exclusivamente do estudante ou também deveria refletir a estrutura das universidades, a qualidade dos professores e laboratórios, o incentivo à pesquisa e a capacidade do Estado de regular e fiscalizar a formação?
Sarah apresentou o posicionamento aprovado pela DENEM contrário a exames de proficiência que, na avaliação da entidade, transfiram individualmente ao estudante as consequências de problemas estruturais da educação médica.
Para ela, o acadêmico precisa participar da construção das soluções: “A gente não tem que ser só objeto de avaliação. A gente tem que ser sujeito da nossa formação.”
Representação também é formação
As diferentes experiências apresentadas durante a mesa convergiram para um mesmo ponto: entidades estudantis e Núcleos Acadêmicos podem ampliar a formação ao colocar os futuros médicos em contato com discussões que nem sempre encontram espaço suficiente nos currículos.
Participar desses ambientes significa aprender sobre educação médica, políticas públicas, trabalho, liderança, representação e defesa profissional, além de construir redes entre estudantes de diferentes instituições e regiões.
Mais do que formar representantes estudantis, esses espaços podem preparar médicos capazes de participar ativamente das decisões sobre os rumos da própria profissão.
A mesa teve como cerimonial a acadêmica Sarah dos Santos Teixeira (SC), foi coordenada pela acadêmica Julianna Osiris Ribeiro Lobo (PA) e teve como relator o acadêmico João Vitor dos Santos Benjamin (PA).
A II Jornada Científica integra a programação do III Congresso Acadêmico Sindical da Federação Médica Brasileira, realizado nos dias 14 e 15 de agosto de 2026, em Curitiba, no Paraná. O evento é organizado em parceria com o SINDMEPA.
