Acadêmica Maria Eduarda Italiano levou ao Congresso Acadêmico Sindical da FMB a perspectiva dos estudantes diante das mudanças na avaliação da formação médica e defendeu mais qualidade nos campos de prática
A necessidade de avaliar a qualidade da formação médica é reconhecida pelos próprios estudantes. Mas uma nova prova de proficiência, isoladamente, não será capaz de resolver as deficiências existentes nas escolas de Medicina. É preciso garantir melhores condições de ensino, campos de estágio adequados e experiências práticas que efetivamente preparem os futuros médicos.
Essa foi a perspectiva apresentada pela acadêmica de Medicina Maria Eduarda Italiano durante a palestra sobre “O fenômeno da formação médica e a nova régua de proficiência médica”, no III Congresso Acadêmico Sindical da Federação Médica Brasileira (FMB), em Curitiba.
Interna de Medicina e integrante do Núcleo de Acadêmicos e de Médicos Jovens do Sindicato dos Médicos da Paraíba, Maria Eduarda analisou as mudanças provocadas pelo ENAMED e pela MP 1.370/2026 a partir de quem está diretamente no centro desse processo: o estudante.
Estudantes reconhecem necessidade de avaliação
Maria Eduarda ressaltou que a defesa de mecanismos para avaliar a qualidade da formação não é nova dentro do movimento acadêmico da FMB. Já na Carta de Belém, construída no primeiro Congresso Acadêmico Sindical, em 2024, os estudantes defenderam uma avaliação progressiva durante a graduação e medidas para as escolas que não apresentassem desempenho adequado.
Para ela, o crescimento acelerado dos cursos e vagas de Medicina tornou essa discussão ainda mais urgente. Ao mesmo tempo, porém, a avaliação precisa estar acompanhada de medidas que enfrentem as causas dos problemas da formação.
Um dos principais pontos levantados foi a insuficiência dos campos de prática. Maria Eduarda relatou situações em que muitos estudantes precisam dividir os mesmos espaços de estágio, dificultando a participação em consultas, a realização de exames físicos e o contato adequado com os pacientes.
“Testar e testar não é um plano de melhoria”
Com a crescente importância das avaliações, algumas escolas passaram a ampliar significativamente a quantidade de simulados e questões aplicadas aos estudantes ao longo da graduação.
Para Maria Eduarda, entretanto, simplesmente aumentar o número de provas não significa melhorar a formação.
“Testar e testar, fazer provas e mais provas, questões e mais questões, não é um bom plano de melhoria. Não vai resolver o cenário atual”, afirmou.
A acadêmica defendeu que os resultados das avaliações sejam utilizados para identificar lacunas e orientar mudanças concretas no processo de ensino. Isso inclui melhorar os campos de estágio e assegurar práticas de qualidade.
Impacto também chega à saúde emocional dos estudantes
A palestra chamou atenção ainda para as incertezas geradas pelas mudanças nas regras de avaliação e acesso à profissão. Para quem está na graduação, acompanhar alterações legislativas enquanto se prepara para provas, internato e residência amplia a pressão já existente.
Maria Eduarda apresentou pesquisa segundo a qual 84% dos estudantes de Medicina entrevistados têm dúvidas sobre a própria capacidade de se tornarem médicos competentes. O levantamento também apontou elevados índices de esgotamento.
A mensagem central foi de equilíbrio: os estudantes compreendem a necessidade de uma avaliação de proficiência e querem participar desse debate. Mas esperam que o enfrentamento do problema não se limite a criar novas provas.
Avaliar é necessário. Garantir condições para que o estudante aprenda, pratique e se torne um médico bem preparado também é.
A discussão sobre a qualidade da formação médica, portanto, precisa olhar não apenas para o resultado obtido ao final do curso, mas para tudo aquilo que acontece durante os seis anos de graduação: estrutura, professores, campos de prática, contato com pacientes e condições efetivas de aprendizagem.
Como sintetizou Maria Eduarda, o objetivo não deve ser apenas remediar os problemas atuais, mas transformar a educação médica para que os futuros profissionais cheguem ao mercado realmente preparados para cuidar da população.
