Mercado de trabalho, contratos, terceirização, responsabilidade profissional, ética e qualidade de vida estiveram no centro da mesa que aproximou os acadêmicos da realidade que encontrarão depois da formatura
A transição entre a faculdade de Medicina e o exercício profissional pode ser acompanhada por dúvidas que vão muito além da assistência ao paciente. Como escolher o primeiro emprego? Qual contrato assinar? É necessário abrir uma empresa? Quais os riscos da terceirização? Como se proteger juridicamente? E como construir uma carreira sem abrir mão da saúde e dos próprios valores?
Essas questões nortearam a mesa “Do jaleco à realidade: guia de sobrevivência do acadêmico ao recém-formado”, realizada durante o III Congresso Acadêmico Sindical da Federação Médica Brasileira (FMB), em Curitiba. Participaram a Dra. Ágata Berti Casalli, conselheira fiscal do SIMESC; Miriam Cipriani Gomes, assessora jurídica do SIMEPAR; e a Dra. Malu David, diretora de Direitos Humanos da FMB e conselheira fiscal do SIMEPE.
O choque entre o sonho e o mercado de trabalho
Primeira médica da família, Ágata Berti Casalli compartilhou a própria experiência para mostrar como o recém-formado pode chegar ao mercado tecnicamente preparado para exercer a Medicina, mas sem conhecimento sobre relações de trabalho, contratos e direitos.
Ao iniciar a carreira em Florianópolis, encontrou um cenário marcado por serviços terceirizados, vínculos como sócia cotista e plantões disputados em grupos de WhatsApp. No primeiro ano, chegou a não ter nenhum trabalho fixo.
A instabilidade mostrou, na prática, a importância de compreender como funciona o mercado antes mesmo da formatura. Ágata relatou situações envolvendo interrupção de contratos, atrasos de pagamentos e pressões por atendimentos em períodos incompatíveis com uma assistência adequada.
Foi diante de um problema trabalhista que ela procurou o sindicato e passou a compreender a importância da organização da categoria. A experiência levou a uma conclusão que compartilhou com os acadêmicos: problemas coletivos precisam de soluções coletivas.
Ágata também incentivou os estudantes a refletirem sobre que profissionais desejam ser. Conhecer as próprias competências e limitações, definir objetivos de curto, médio e longo prazo, construir uma reserva financeira, preservar o julgamento clínico e aprender a dizer “não” a situações incompatíveis com a ética e a segurança do paciente estão entre as atitudes que considera essenciais.
Outro alerta foi para a necessidade de proteger o tempo de descanso e não negligenciar a própria saúde. Uma carreira sustentável, destacou, não pode ser construída à custa de jornadas excessivas, privação de sono e abandono da vida fora da Medicina.
Antes de assinar, é preciso entender o contrato
A advogada Miriam Cipriani Gomes apresentou aos futuros médicos as principais modalidades de prestação de serviços e os riscos jurídicos que podem acompanhar o início da carreira.
Ela explicou as diferenças entre atuação autônoma, vínculo de emprego, serviço público, terceirização e pejotização, chamando atenção especialmente para situações em que profissionais formalmente contratados como autônomos trabalham, na prática, com características próprias de uma relação de emprego.
Outro ponto foi a abertura ou o ingresso em pessoas jurídicas. A orientação é não tomar decisões apenas pela urgência de começar a trabalhar. Antes de integrar uma sociedade médica, o profissional deve conhecer o tipo societário, quem são os sócios e quais responsabilidades poderá assumir, inclusive sobre seu patrimônio pessoal.
O mesmo cuidado vale para empresas terceirizadas. Miriam recomendou verificar a situação da contratante, sua capacidade financeira e a existência de processos antes de estabelecer uma relação profissional. Quanto maior a cadeia entre o contratante original e o médico, maior pode ser a exposição à precarização.
O recado aos acadêmicos foi claro: a vontade de começar a trabalhar não deve substituir uma análise consciente das condições oferecidas.
O diploma não encerra as responsabilidades
Malu David trouxe outro componente essencial desse “guia de sobrevivência”: as responsabilidades éticas do médico e o papel dos Conselhos de Medicina.
A cardiologista explicou que o diploma, por si só, não habilita o profissional ao exercício da Medicina. É necessário registro no Conselho Regional de Medicina e, ao longo da carreira, conhecimento das normas que regulamentam a profissão.
Malu apresentou as funções dos Conselhos, abordou o Registro de Qualificação de Especialista (RQE), explicou como funcionam sindicâncias e processos ético-profissionais e chamou atenção para situações envolvendo imperícia, imprudência e negligência.
Entre suas orientações, destacou especialmente o prontuário médico. Um registro completo, legível e adequado não é apenas uma obrigação profissional e um documento relacionado à assistência: também pode ser fundamental para demonstrar a conduta adotada pelo médico diante de uma denúncia.
A dirigente reforçou ainda que desconhecer as normas não afasta a responsabilidade profissional e incentivou os estudantes a conhecerem desde a graduação o Código de Ética Médica.
Preparação para uma carreira sustentável
As três perspectivas se encontraram em uma mensagem comum: o recém-formado precisa estar preparado não somente para diagnosticar e tratar, mas também para tomar decisões sobre sua própria trajetória profissional.
Conhecer contratos, avaliar vínculos, compreender direitos e responsabilidades, preservar a autonomia médica, respeitar os limites éticos e cuidar da própria saúde são conhecimentos que podem evitar decisões precipitadas em um momento de grande vulnerabilidade profissional.
A mesa mostrou ainda a importância de aproximar os acadêmicos das entidades médicas antes da formatura. Sindicatos, conselhos e demais organizações podem oferecer orientação e suporte justamente em temas que nem sempre recebem espaço suficiente durante a graduação.
A atividade teve como cerimonial o acadêmico Rafael Miranda Taborda Bombazar (PR), como presidente a acadêmica Isadora Freitas (PA) e como relatora a acadêmica Maria Luiza Gomes (SC).
A II Jornada Científica integra a programação do III Congresso Acadêmico Sindical da Federação Medica Brasileira, realizado nos dias 14 e 15 de agosto de 2026, em Curitiba, no Paraná. O evento é organizado em parceria com o SINDMEPA.
