Os impactos da telemedicina e da Inteligência Artificial na relação médico-paciente estiveram entre os temas centrais da Assembleia Extraordinária da CONFEMEL, realizada em maio, em Quito, no Equador. Em uma palestra marcada por reflexões éticas e críticas à desumanização da assistência, o médico Ruben H. Tucci defendeu que a tecnologia deve complementar — e jamais substituir — o ato médico presencial.
Durante a apresentação “IA e Telemedicina: seu impacto na prática médica”, o especialista alertou para os riscos provocados pelo crescimento acelerado das plataformas digitais de atendimento, especialmente diante da transformação da medicina em modelos semelhantes a “call centers”, onde pacientes são avaliados rapidamente, muitas vezes sem exame físico adequado e sem vínculo médico efetivo.
Segundo Tucci, a medicina vive um cenário de progressiva perda da relação humana no cuidado, com consultas cada vez mais breves, relações impessoais, precarização do trabalho médico e instituições centradas prioritariamente na lógica de mercado.
“A relação médico-paciente é o núcleo fundamental do ato médico e alcança sua plenitude na presencialidade”, destacou durante a palestra.
O debate reforçou que a teleconsulta deve ser compreendida como prática acessória, complementar e auxiliar da medicina presencial, nunca como substituição definitiva da avaliação clínica tradicional. Entre os principais riscos apontados estão o aumento da possibilidade de erros diagnósticos, limitações do exame físico, insegurança jurídica e perda da humanização da assistência.
O palestrante também defendeu que primeiras consultas sejam prioritariamente presenciais, salvo situações excepcionais, como barreiras geográficas ou necessidades específicas de acompanhamento. Além disso, ressaltou que programas de acompanhamento virtual devem ocorrer apenas após avaliação presencial prévia do paciente.
Outro ponto de destaque foi a preocupação com a responsabilidade jurídica das plataformas digitais de saúde. Segundo Tucci, muitas empresas transferem integralmente aos médicos os riscos e consequências das orientações prestadas remotamente, enquanto se eximem de responsabilidade sobre a assistência oferecida.
A palestra ainda abordou temas como proteção de dados, consentimento informado, validação da identidade dos pacientes, necessidade de registro em prontuário, capacitação digital dos médicos e segurança cibernética.
Apesar das críticas ao uso indiscriminado da telemedicina, o especialista reconheceu o enorme potencial da tecnologia para ampliar acesso à saúde, especialmente em regiões vulneráveis e distantes dos grandes centros. Como exemplo positivo, apresentou experiências do Programa Nacional de Telessaúde Pediátrica, desenvolvido na Argentina.
Ao encerrar sua apresentação, Ruben Tucci resumiu a principal mensagem do debate:
“Sem tecnologia não existe telemedicina. Mas sem médicos não existe medicina.”
