Por Dr. Cyro Veiga Soncini, vice-presidente da FMB e secretário-geral do SIMESC
Há décadas, médicos de todas as regiões do Brasil compartilham uma mesma percepção: somos uma das profissões mais impactadas por decisões políticas, mas ainda estamos sub-representados nos espaços onde essas decisões são tomadas.
É comum ouvirmos críticas às leis, às mudanças regulatórias, aos modelos de contratação, à expansão desordenada da formação médica, às dificuldades enfrentadas no Sistema Único de Saúde e à crescente insegurança jurídica da profissão. No entanto, raramente fazemos uma pergunta essencial: quem está participando dessas decisões?
A verdade é simples. A medicina não é influenciada apenas por evidências científicas ou avanços tecnológicos. Ela é moldada diariamente por normas, orçamentos públicos, projetos de lei, políticas de saúde e decisões administrativas. Tudo isso afeta diretamente a autonomia profissional, as condições de trabalho, a remuneração e, sobretudo, a qualidade da assistência oferecida à população.
Por muitos anos, a categoria médica lamentou a falta de representatividade política. Curiosamente, embora existam médicos ocupando cargos legislativos e executivos, poucos chegam a esses espaços com apoio consistente da própria comunidade médica ou com uma trajetória construída na defesa institucional da profissão.
Não se trata de defender nomes, partidos ou ideologias. Trata-se de refletir sobre a importância da representação qualificada. Em qualquer democracia madura, categorias profissionais estratégicas compreendem que sua participação nos ambientes de decisão é fundamental para que suas realidades sejam conhecidas e consideradas.
O debate ganha ainda mais relevância diante de desafios contemporâneos, como a crescente pejotização das relações de trabalho, a precarização dos vínculos profissionais, a expansão de modelos assistenciais sem o devido planejamento e as discussões sobre segurança no exercício da medicina.
Por isso, o tema central do XXVI Fórum de Entidades Médicas de Santa Catarina (FEMESC), que será realizado nos dias 19 e 20 de junho, em Joinville, não poderia ser mais oportuno: “O médico e a política”. Embora o evento aconteça em Santa Catarina, a discussão possui dimensão nacional e interessa a toda a categoria médica brasileira.
O objetivo não é estimular candidaturas nem antecipar disputas eleitorais. O propósito é promover uma reflexão legítima: se as decisões que afetam a medicina continuarão sendo tomadas nos espaços políticos, quem estará lá para compreender a realidade do médico e defender uma assistência de qualidade para a população?
Em 2026, o Brasil voltará às urnas para escolher senadores, deputados federais, governadores e deputados estaduais. Quando esse momento chegar é preciso fazer uma análise cuidadosa sobre a trajetória, o compromisso e a capacidade de representação dos colegas médicos postulantes a esses espaços e apoia-lo nesse momento importante.
Afinal, quando os médicos não participam das decisões, inevitavelmente passamos a conviver com as decisões tomadas por outros.
E essa é uma realidade que a categoria não pode mais ignorar.
