Dra. Carol Tabosa — secretária-geral da FMB e presidente do SIMEPE
A feminização da medicina brasileira é uma conquista histórica, mas ainda incompleta. Em 2026, esse marco já não é uma projeção: as mulheres são maioria entre os médicos em atividade no país. A Demografia Médica no Brasil 2025 já apontava que elas representavam 50,9% da força médica nacional, enquanto a presença feminina na graduação havia alcançado 61,8% dos estudantes de medicina em 2023. Esse avanço, no entanto, não foi acompanhado, na mesma intensidade, por mudanças estruturais capazes de garantir estabilidade, proteção social, condições dignas de trabalho e valorização profissional. Celebrar a presença feminina sem discutir permanência, segurança e reconhecimento é reduzir uma transformação profunda a uma estatística.
Os números revelam uma contradição importante. Embora as mulheres tenham avançado na graduação e na profissão, elas continuam sub-representadas entre especialistas e em áreas historicamente associadas a maior prestígio, poder institucional e remuneração. Segundo a Demografia Médica no Brasil 2025, as mulheres predominavam em apenas 20 das 55 especialidades médicas, o que demonstra que a feminização da medicina ocorreu, e ainda ocorre, em um cenário marcado por barreiras na progressão de carreira, na ocupação de espaços de decisão e no acesso às melhores condições de trabalho.
Essa desigualdade se agravou em um mercado cada vez mais marcado pela fragilização dos vínculos. A proporção de médicos com vínculos formais caiu de forma expressiva ao longo da última década. Em 2023, apenas 33,3% dos profissionais tinham vínculo formal, percentual muito inferior ao registrado em 2012. Ou seja, enquanto a medicina cresceu em número de profissionais e se tornou mais feminina, diminuiu a proporção de vínculos capazes de assegurar previsibilidade, direitos trabalhistas e proteção institucional.
Nesse cenário, a pejotização ocupa lugar central. É preciso fazer uma distinção: nem toda atuação como pessoa jurídica é irregular ou indesejável. Há profissionais que, de fato, exercem atividade autônoma, com liberdade organizacional, gestão própria de agenda e capacidade real de negociação. O problema ocorre quando a contratação por PJ é utilizada para mascarar relações de trabalho marcadas por subordinação, habitualidade, pessoalidade e ausência de autonomia efetiva. Nessas situações, o CNPJ deixa de ser expressão de independência profissional e passa a funcionar como instrumento de transferência de riscos do empregador para o trabalhador.
Na prática, muitos médicos cumprem escalas fixas, seguem ordens diretas, submetem-se a metas, protocolos administrativos e controle de jornada, mas permanecem sem as garantias associadas ao vínculo formal. A expansão da pejotização, da terceirização, das cooperativas e de contratos indiretos modificou profundamente o mercado de trabalho médico, inclusive no SUS, onde modelos intermediados por organizações sociais, fundações privadas e outras entidades passaram a substituir, em muitos contextos, relações mais estáveis de trabalho.
Para as médicas, os efeitos dessa lógica são ainda mais profundos. A ausência ou fragilidade da proteção social amplia o custo profissional da maternidade, dificulta afastamentos por gestação, puerpério ou adoecimento, compromete a previsibilidade de renda e aumenta a vulnerabilidade diante de dispensas e substituições. Em um mercado sem estabilidade mínima, a gravidez pode ser tratada como inconveniente operacional; o cuidado familiar, como obstáculo de carreira; e a necessidade de pausa, como falha individual.
Essa realidade recai sobre mulheres que, além da assistência médica, muitas vezes acumulam funções de gestão doméstica, cuidado de filhos, familiares idosos e responsabilidades afetivas historicamente atribuídas às mulheres. A jornada da médica não termina ao fim do plantão. Quando a instabilidade contratual se soma à dupla ou tripla jornada, o resultado é um desgaste que não pode ser naturalizado como “vocação”, “resiliência” ou “sacrifício inerente à profissão”.
Os impactos aparecem também na saúde mental. Jornadas extensas, pressão permanente, baixa autonomia, insegurança contratual, assédio moral, assédio sexual e dificuldade de conciliar vida profissional e pessoal produzem um ambiente adoecedor. Levantamento nacional divulgado em 2024 indicou que 39,8% dos médicos enfrentavam algum tipo de doença mental, como depressão, ansiedade ou burnout, sendo que duas em cada três pessoas afetadas eram mulheres. A saúde mental das médicas, portanto, não pode ser tratada como problema individual: é consequência direta da forma como o trabalho está organizado.
Outro ponto decisivo é a desigualdade de reconhecimento e remuneração. Mesmo com alto desempenho assistencial, presença majoritária na formação médica e participação crescente em todas as etapas da profissão, as médicas continuam recebendo menos. Essa diferença não é casual: revela um mercado ainda atravessado por vieses de gênero, no qual mulheres precisam provar repetidamente sua competência em uma estrutura historicamente moldada por padrões masculinos de carreira, disponibilidade e liderança.
A precarização do trabalho médico não atinge apenas os profissionais. Ela fragiliza todo o sistema de saúde. Vínculos instáveis aumentam a rotatividade, enfraquecem a continuidade do cuidado, dificultam a criação de equipes permanentes, reduzem a capacidade de negociação coletiva e tornam mais difícil a construção de ambientes seguros para profissionais e pacientes. A medicina exige responsabilidade técnica, formação contínua, vínculo com a comunidade e compromisso ético. Nada disso se sustenta plenamente em relações de trabalho descartáveis.
Defender vínculos formais não significa negar a diversidade de formas de atuação médica, nem ignorar as mudanças do mundo do trabalho. Significa afirmar que autonomia não pode ser confundida com desproteção, flexibilidade não pode servir de pretexto para fraude e modernização não pode significar retirada de direitos. Um modelo de trabalho verdadeiramente moderno precisa combinar eficiência, qualidade assistencial, proteção social e dignidade profissional.
Como médica e dirigente sindical, acredito que esse debate precisa ser enfrentado com coragem. É urgente combater fraudes na pejotização, fortalecer a fiscalização das relações de trabalho, defender vínculos formais, garantir proteção à maternidade, ampliar políticas de prevenção ao adoecimento mental, enfrentar assédios e produzir dados permanentes que revelem as desigualdades de gênero na medicina.
A feminização da medicina brasileira só será uma conquista plena quando vier acompanhada de valorização, segurança e igualdade real. O futuro da profissão depende de um modelo de trabalho mais humano, sustentável e equitativo. Cuidar de quem cuida exige mais do que reconhecimento simbólico: exige direitos, proteção e respeito.
