Por Dra. Nástia Irina de Sousa Santos, conselheira fiscal da Federação Médica Brasileira e diretora de Assistência Jurídica, Defesa Profissional e Condições de Trabalho do Sindicato dos Médicos do Pará
A medicina brasileira vive uma transformação histórica. Em 2025, as mulheres passaram a representar 51% da força de trabalho médica, consolidando um processo de feminização que vem se intensificando ao longo das últimas décadas. Esse avanço simboliza conquistas importantes no acesso à formação, ao exercício profissional e à participação feminina em uma das carreiras mais valorizadas da sociedade. No entanto, os números revelam uma realidade que exige reflexão: ser maioria não significa, necessariamente, ter igualdade.
Apesar do crescimento da presença feminina na profissão, persistem desigualdades salariais, barreiras à ascensão profissional e formas cada vez mais sofisticadas de precarização das relações de trabalho. Estudos apontam que médicas recebem, em média, cerca de 23% menos que seus colegas homens, mesmo quando possuem formação e qualificação equivalentes. Esse dado evidencia que o problema não está na capacidade técnica das profissionais, mas em estruturas históricas que continuam produzindo desigualdades.
Para compreender esse cenário, é necessário olhar além dos consultórios e hospitais. O trabalho das mulheres não se restringe à esfera profissional. Em grande parte dos casos, ele continua associado às responsabilidades familiares, domésticas e de cuidado, historicamente atribuídas ao gênero feminino. Essa dupla jornada amplia a sobrecarga, reduz oportunidades de crescimento e impacta diretamente a permanência das mulheres em espaços de liderança e decisão.
Outro desafio relevante é a precarização das relações de trabalho. A expansão da pejotização e de outras formas de contratação flexibilizadas fragiliza direitos, reduz a proteção social e transfere riscos para os profissionais. Embora esses impactos atinjam toda a categoria médica, eles tendem a ser mais severos para as mulheres, especialmente em momentos relacionados à maternidade e às responsabilidades familiares.
Embora o Brasil possua legislação que proíbe discriminação salarial e prevê mecanismos de proteção à igualdade, a experiência prática demonstra que a existência da norma, por si só, não é suficiente para eliminar desigualdades estruturais. É necessário fortalecer mecanismos de fiscalização, ampliar a produção de dados sobre a realidade das médicas e formular políticas públicas capazes de enfrentar as causas profundas dessas assimetrias.
Nesse processo, o papel das entidades sindicais, das instituições médicas e da sociedade civil é fundamental. A transformação exige ação coletiva, produção de conhecimento e compromisso permanente com a construção de ambientes de trabalho mais justos e inclusivos.
A feminização da medicina é uma conquista histórica. O próximo passo é garantir que essa conquista seja acompanhada de equidade, valorização profissional e condições dignas de trabalho para todas as médicas brasileiras.
