Por Dra. Janice Painkow
Diretora da FMB e Sinmed Tocantins
A medicina está passando por uma transformação silenciosa, mas profundamente impactante. Vendida como inovação, flexibilidade e autonomia, a chamada “uberização da saúde” vem redesenhando a forma como médicos trabalham — e, mais do que isso, vem alterando a própria essência do cuidado. O que se apresenta como modernização esconde, na prática, um modelo que fragiliza vínculos, reduz a autonomia profissional e desloca riscos e custos para quem está na ponta: o médico.
Inspirado em plataformas digitais, esse novo arranjo coloca o profissional como um “parceiro” de aplicativos que intermediam consultas e serviços. A promessa é de liberdade. Mas a realidade é outra. O médico não define preço, não controla a demanda, não estabelece critérios de atendimento. Ele passa a ser gerido por algoritmos, avaliado por métricas e ranqueado por sistemas que determinam sua visibilidade e, consequentemente, sua renda. A autonomia, nesse contexto, torna-se apenas aparente.
Ao mesmo tempo, ocorre uma transferência progressiva de custos. Estrutura, equipamentos, conectividade e manutenção deixam de ser responsabilidade das empresas e passam a ser absorvidos pelo profissional. As plataformas, por sua vez, concentram o controle e retêm parte significativa do valor das consultas, criando um cenário de remuneração reduzida e instabilidade crescente. Em alguns casos, consultas são ofertadas por valores incompatíveis com a complexidade do ato médico, reforçando a desvalorização da profissão .
Esse modelo se sustenta, em grande medida, pela pejotização, que transforma médicos em pessoas jurídicas, afastando-os de direitos básicos como férias, descanso remunerado e proteção previdenciária. Sob o discurso de liberdade contratual, o que se observa é a construção de relações frágeis, com jornadas extensas, insegurança financeira e maior exposição a riscos. A suposta flexibilidade frequentemente se traduz em necessidade de trabalhar mais para manter a renda.
Os impactos não se limitam ao campo trabalhista. A relação médico-paciente, fundamento histórico da prática médica, também sofre alterações profundas. O vínculo contínuo dá lugar a atendimentos fragmentados, mediado por telas e plataformas. O cuidado perde longitudinalidade, e o médico passa a ocupar o lugar de prestador substituível em um catálogo digital. A lógica da saúde se aproxima perigosamente de um modelo de consumo rápido, em que a qualidade cede espaço à velocidade e à padronização.
Outro ponto crítico é a mudança nos critérios de reputação profissional. A avaliação deixa de estar centrada na formação, na experiência e no reconhecimento entre pares, passando a depender de notas, comentários e algoritmos. O paciente escolhe o médico como escolhe um serviço qualquer, guiado por rankings. Essa dinâmica não apenas fragiliza a autoridade médica, como também introduz um sistema de controle indireto, em que agradar pode, muitas vezes, competir com a melhor conduta técnica.
As consequências desse cenário já são visíveis. Jornadas extensas, pressão por produtividade, instabilidade e ausência de proteção social têm levado ao aumento do adoecimento físico e mental entre médicos. O burnout deixa de ser exceção e passa a ser parte do cotidiano. A promessa de autonomia dá lugar a um ambiente de constante vigilância e cobrança.
Embora a tecnologia, especialmente a telemedicina, tenha trazido avanços importantes, como ampliação do acesso e redução de barreiras geográficas, seu uso dentro de modelos precarizantes revela um paradoxo. A inovação, que deveria qualificar o cuidado, passa a ser utilizada como instrumento de redução de custos e maximização de lucros, muitas vezes em detrimento da qualidade assistencial e da dignidade do trabalho.
Mais do que uma mudança organizacional, a uberização da saúde representa um risco à própria estrutura do sistema. A fragmentação do cuidado, a ausência de continuidade, a inserção de profissionais em condições precárias e a crescente mercantilização da assistência impactam diretamente a segurança do paciente. Quando a lógica econômica se sobrepõe à lógica do cuidado, toda a sociedade é afetada.
Diante desse cenário, torna-se evidente que a tecnologia não pode ser tratada como inimiga, mas também não pode ser incorporada sem limites. O desafio está em garantir que a inovação caminhe ao lado da proteção do trabalho médico e da segurança do paciente. Isso exige regulação, fiscalização e, sobretudo, ação coletiva. Médicos isolados não têm poder para enfrentar algoritmos ou modelos de negócio estruturados. É na organização da categoria, no fortalecimento das instituições e na atuação sindical que reside a possibilidade de equilíbrio.
A uberização da saúde não é apenas uma tendência de mercado. É um ponto de ruptura. E a forma como será enfrentada definirá o futuro da medicina: se como prática essencialmente humana, baseada em ética, vínculo e responsabilidade, ou como mais um serviço submetido à lógica fria das plataformas. A escolha está em curso — e ela não pode ser ignorada.
