Dr Vanio Cardoso Lisboa
Diretor do Médico Jovem da FMB e presidente do SIMESC
Há um momento na vida de todo médico que mistura orgulho e inquietação. A formatura, tão aguardada, chega carregada de expectativas — e, quase imediatamente, de incertezas. É nesse ponto que começa, de fato, a travessia.
Ser médico jovem no Brasil hoje não é apenas uma fase cronológica. É uma condição marcada por desafios estruturais, por um mercado em transformação acelerada e, muitas vezes, por uma sensação silenciosa de desamparo.
Tradicionalmente, considera-se médico jovem aquele com até 10 anos de formado. Mas essa definição, ainda que útil, não traduz a complexidade dessa etapa. Estamos falando de uma geração que já nasce em um cenário mais competitivo, mais instável e, paradoxalmente, mais exigente.
A expansão desenfreada de cursos de medicina alterou profundamente o perfil da categoria. Mais médicos ingressam no mercado a cada ano — muitos deles mulheres, o que revela uma transformação importante da profissão —, mas sem que haja a correspondente ampliação de oportunidades qualificadas de formação e inserção profissional.
O primeiro grande obstáculo se impõe antes mesmo do exercício pleno da medicina: a residência médica. Não é de hoje que o número de vagas não acompanha o volume de egressos. Menos de um terço consegue acessar programas reconhecidos, enquanto a maioria precisa lidar com escolhas difíceis: plantões exaustivos, vínculos precários, subempregos ou caminhos improvisados.
E mesmo para aqueles que conseguem ingressar na residência, a realidade está longe de ser ideal. A sobrecarga, a falta de supervisão adequada e, em alguns casos, a utilização do residente como força de trabalho assistencial, em detrimento da formação, expõem um sistema que precisa ser revisto com urgência.
Quando essa etapa se encerra, uma nova disputa começa. O acesso ao mercado de trabalho se revela árduo, fragmentado e, muitas vezes, injusto. Jovens médicos disputam espaço em condições desiguais, enfrentam ambientes precarizados, contratos frágeis e a pressão constante por produtividade.
Some-se a isso o impacto emocional de uma carreira iniciada sob tensão permanente. O burnout deixa de ser uma exceção e passa a ser um risco real. A medicina, que deveria ser exercida com excelência e equilíbrio, muitas vezes começa sob desgaste.
Diante desse cenário, uma pergunta precisa ser feita com honestidade: quem acolhe o médico jovem?
É justamente nesse ponto que reside uma responsabilidade inadiável das entidades médicas. O jovem profissional não pode se sentir invisível dentro das estruturas que deveriam representá-lo. Ele precisa reconhecer no seu sindicato de base e na Federação Médica Brasileira não apenas uma instituição, mas um espaço de escuta, orientação e defesa.
Assumir a diretoria do Médico Jovem da FMB é, antes de tudo, assumir um compromisso com essa realidade. Não se trata apenas de representar, mas de compreender profundamente as dores, as angústias e as expectativas de quem está iniciando sua trajetória.
É necessário estudar, propor e implementar ações concretas que aproximem esses profissionais das entidades, que ofereçam suporte real — seja na orientação de carreira, na defesa profissional, na qualificação contínua ou na construção de caminhos mais seguros no mercado de trabalho.
O médico jovem não pode ser visto como um problema a ser administrado, mas como protagonista do futuro da medicina brasileira. É ele quem sustentará, nos próximos anos, a qualidade da assistência, a ética da profissão e a relação com a sociedade.
Mas protagonismo exige condições. Exige dignidade na formação, respeito no exercício profissional e segurança para crescer.
A medicina brasileira só avançará se houver um compromisso coletivo entre gerações. Médicos experientes e jovens precisam caminhar lado a lado, não em competição, mas em construção.
O início da carreira sempre foi desafiador. Mas ele não pode ser solitário.
