No Dia Mundial da Saúde, celebrado no dia 7 de abril, o diretor do Sinmed-MG, Artur Oliveira, refletiu sobre o papel da categoria diante das vulnerabilidades sociais e emprestando sua voz àqueles que ainda não conseguem falar.
Por Artur Oliveira Mendes, diretor Jurídico Associativo do Sinmed-MG
Hoje é dia sete de abril e, chegando para o início dos trabalhos em minha unidade de saúde, reconheci alguns pacientes na fila, aguardando pelo primeiro acolhimento do dia.
Logo no início, notei uma jovem mãe com o bebê a tiracolo. Cobria de forma desajeitada o pequeno, ao mesmo tempo em que desviava a própria tosse para longe daquele rostinho. Eu me lembrava dela: gestação adolescente, sífilis positiva e um parceiro que, além de não se tratar, sumiu no mundo tão logo o parto aconteceu. Vivia de favores na casa de uma tia e tinha medo de como faria para alimentar o filho quando não conseguisse mais amamentar.
No segundo lugar da fila, um homem de meia-idade, com olhos marejados (pela madrugada ou pela vida). A esposa o tinha abandonado com um filho de dez anos para viver um outro amor juvenil. Para maior dos pecados, ela encontrou aluguel no mesmo quarteirão do ex-marido, que agora vinha às consultas afirmando não conseguir mais dormir. Apesar do antigo ditado de que “homens não choram”, este vertia copiosas cataratas, incapaz de se conformar com a traição. Infelizmente, a medicação à qual ele se adaptou não estava disponível no sistema público, e o alto preço acabava levando a grandes períodos sem tratamento.
Em seguida, outra mãe, desta vez com três crianças — uma “escadinha”, como dizem os antigos. Beneficiária de programas de distribuição de renda, ainda não tinha conseguido quem a ajudasse com os filhos para que pudesse voltar a trabalhar e mudar-se de sua casa atual, que ficava em uma área já condenada pela Defesa Civil do município.
Logo depois, uma linda mulher. Seus olhos vidrados passariam despercebidos por quem não conhecesse sua história: tentativas de autoextermínio, etilismo, abuso de drogas… Um pacote tenebroso que inspirava a necessidade de grandes cuidados. Vivia sozinha, com laços familiares rompidos e ninguém para saber como passava pelas horas.
Adiante, um idoso com farta barba. Usava uma bengala tão antiga quanto suas roupas puídas. Hipertenso e diabético, queixava-se da falta de alguns remédios na farmácia do centro de saúde. Na verdade, pouca diferença os medicamentos fariam, uma vez que o analfabetismo impunha imensa dificuldade à coordenação de seus cuidados.
Quase no meio da fila, um morador de rua bem conhecido do bairro. Grandes e pequenas feridas pelo corpo, resultado da falta de acesso a medidas de higiene, pareciam ser o motivo de uma nova busca por atendimento.
E assim outro, e outro, e tantos mais… Cada um, uma história; cada qual, uma vida e uma confidência. Mais que apenas uma consulta, todos precisavam de uma escuta atenta, e não só por parte do médico. A saúde, como já ensinado, passa pelo campo biológico, mas também pelo mental e social. As pessoas nunca são apenas corpos sobre os quais age a ciência.
Hipócrates, pai da Medicina, em seu primeiro aforisma já refletia sobre as limitações do conhecimento, mas também lembrava a importância de fazer o necessário para que a atenção à saúde fosse mais que a prescrição de fórmulas mágicas.
É observando o mundo da vida e lembrando de antigos mestres que a gente se permite uma oração: que neste sete de abril, Dia Mundial da Saúde, possa o médico continuar sendo espectador privilegiado das mazelas e problemas da área, mas que possa também, e sobretudo, avançar cada vez mais para o palco das coisas. Que se converta em ator fundamental em nome do cuidado e da atenção de qualidade para toda a humanidade, mostrando caminhos, requisitando envolvimento e ações coletivas, e emprestando sua voz àqueles que ainda não conseguem falar.
