Quando a melodia de Dona Ivone Lara ecoa — “eu vim de lá, eu vim de lá, pequenininho” — não é só samba que se ouve, é história de quem carrega no corpo e na voz o peso e a beleza de um caminho. Entre muitos devaneios, também penso nos colegas médicos quando escuto esse samba. Porque, no fundo, cada diploma também nasce de um “lá” distante: noites de plantão, cheiros específicos de cada hospital, livros abertos em madrugadas silenciosas, além da lida com muitas histórias que um paciente carrega. Perceba: nenhum título é um milagre instantâneo. É suor, é vigília, é a disciplina no cumprimento de atividades acadêmicas que transforma um estudante num profissional médico e em seguida, merecidamente, o médico em especialista.
Recentemente, o Conselho Federal de Medicina anunciou que, a partir de outubro, uma ferramenta de inteligência artificial vai rastrear as redes sociais em busca de ‘falsos especialistas’. Um avanço tecnológico, sem dúvida, mas que carrega um convite maior: nós médicos também precisamos entender o nosso papel na valorização da medicina. Porque a defesa da nossa profissão não começa no algoritmo (a medicina chegou muito antes disso!), começa na consciência e responsabilidade ética de quem veste o jaleco.
As redes sociais deram voz e funciona como vitrine a muitos profissionais. É um espaço amplo e democrático para diversos debates científicos, mas não deixa de ser uma armadilha perigosa para quem ‘confunde’ experiência com especialidade. E é aqui que a crônica se encontra com a norma: cada médico tem autonomia para exercer a medicina em toda a sua amplitude, mas o título de especialista exige a travessia completa — residência credenciada, prova de título, o percurso que a lei reconhece. Esse respeito pelo “eu vim de lá”, regulamentado por decreto, garante a confiança do paciente, protege a saúde da população e também a credibilidade da categoria.
Rever a própria biografia digital, checar cada palavra, pode parecer mero detalhe burocrático, mas é também uma questão de respeito pelas normas que regem o nosso Código de Ética Médica, além de demonstrar respeito pelos colegas que trilharam o caminho estabelecido para se intitular especialista. Quando não se tem especialidade,
escrever “atuo na área de…” em vez de “especialista em…” não diminui ninguém; ao contrário: mostra ética, conhecimento da autonomia profissional e respeito pelos limites impostos à divulgação de especialidades. A Resolução CFM n.º 2.336/2023 não é uma mordaça: é o compasso que mantém a música em harmonia.
Diretor de Tecnologia e Informação do Sinmed-MG l Igo Rian Almeida Barroso
Médico de Família e Comunidade
CRM MG 77841 | RQE 60851
