A relação entre médicos e operadoras de saúde foi tema da palestra de Andréa Lúcia Rezende Martins Donato, diretora de Saúde Suplementar do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais, durante o 1º Congresso da Mulher Médica da Federação Médica Brasileira, realizado em Maceió (AL).
Ao abordar o funcionamento do setor, Andréa destacou que o mercado da saúde suplementar no Brasil permanece relativamente estável em número de beneficiários. Atualmente, cerca de 55 milhões de brasileiros possuem planos de saúde, número que não tem apresentado crescimento significativo nos últimos anos.
Apesar disso, o volume financeiro movimentado pelo setor é expressivo. Segundo dados apresentados pela palestrante, em 2024 a saúde suplementar movimentou cerca de R$ 360 bilhões, enquanto o orçamento federal previsto para a saúde pública foi de aproximadamente R$ 218 bilhões, com municípios ainda tendo que complementar recursos acima dessa previsão.
A dirigente sindical explicou que o sistema de saúde suplementar é composto por diferentes tipos de operadoras, como as autogestões, criadas por empresas para atender seus próprios funcionários; as medicinas de grupo, que comercializam planos no mercado; as seguradoras, que atuam com lógica semelhante ao seguro tradicional; e as cooperativas médicas, modelo em que os próprios médicos são prestadores e também participantes da gestão do sistema.
A palestrante também apresentou os principais modelos de contratação utilizados no setor. O mais tradicional é o fee for service, em que o médico recebe por procedimento realizado. Esse modelo, no entanto, tem sido cada vez mais questionado por sua imprevisibilidade financeira e pela possibilidade de glosas, inadimplência ou custos maiores que a remuneração recebida.
Outro modelo comum é a remuneração por tempo de dedicação, utilizada especialmente em plantões ou serviços verticalizados. Há ainda contratos por meio de pessoa jurídica, inclusive dentro de cooperativas médicas, além de formas de pagamento baseadas em metas ou produtividade.
Andréa Donato ressaltou que a relação com as operadoras de saúde envolve desafios importantes para os médicos, entre eles glosas de procedimentos, negativas de cobertura, limitações à autonomia médica e dificuldades na negociação contratual.
Segundo ela, um dos problemas recorrentes é a autorização prévia de procedimentos que posteriormente acabam sendo glosados pelas operadoras. Em muitos casos, os médicos precisam recorrer administrativamente ou até judicialmente para receber valores já autorizados, processo que pode se tornar inviável financeiramente.
Apesar dessas dificuldades, a palestrante observou que o cenário atual apresenta menos atrasos de pagamento do que no passado. Antes da regulamentação do setor, não era incomum que médicos aguardassem seis meses ou até um ano para receber por serviços prestados. Hoje, os prazos médios giram em torno de 60 a 90 dias.
Donato também chamou atenção para a remuneração média dos médicos que atuam na saúde suplementar. Segundo dados apresentados, a renda mensal nesse segmento varia em torno de R$ 13 mil a R$ 25 mil, com jornadas frequentemente superiores a 13 ou 14 horas diárias, o que evidencia a pressão sobre os profissionais.
Outro fator apontado foi o impacto da expansão do número de médicos no mercado. Com cerca de 590 mil médicos em atividade no Brasil, a oferta crescente de profissionais aumenta a competição e dificulta a negociação de melhores condições com as operadoras.
A palestrante também destacou a importância de fortalecer os mecanismos de negociação coletiva e de ampliar a representação médica em instâncias regulatórias, como a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), responsável pela regulação do setor.
Para Andréa Donato, o objetivo deve ser buscar um modelo mais equilibrado entre operadoras, profissionais e pacientes, garantindo melhores condições de trabalho para os médicos, remuneração sustentável e qualidade na assistência prestada à população.
Encerrando sua apresentação, ela defendeu a necessidade de reorganizar as relações no setor e fortalecer a participação das entidades médicas na formulação de políticas que impactam diretamente o exercício da medicina na saúde suplementar.
