A saúde mental da mulher médica foi tema da palestra de Cláudia Paola Carrasco Aguilar, diretora de Educação Médica e Formação Profissional da Federação Médica Brasileira e secretária-geral do Sindicato dos Médicos do Estado do Paraná, durante o 1º Congresso da Mulher Médica da FMB, em Maceió (AL).
Ao abordar o tema, Cláudia Paola destacou que o avanço numérico das mulheres na medicina não foi acompanhado por mudanças estruturais capazes de garantir condições mais equilibradas de trabalho, progressão de carreira e cuidado com a própria saúde. Segundo ela, a profissão passou por uma transformação histórica, deixando de ser predominantemente masculina para ter hoje maioria feminina em vários países, inclusive no Brasil. No entanto, as desigualdades persistem.
A palestrante observou que a feminização da medicina não se refletiu, na mesma proporção, nos espaços de liderança, gestão e decisão. Para ela, muitas médicas seguem encontrando barreiras para ascender a cargos mais altos em instituições, hospitais e entidades de representação, ao mesmo tempo em que lidam com uma sobrecarga cotidiana invisível.
Cláudia Paola definiu esse cenário como uma crise silenciosa. Segundo ela, por trás do crescimento da presença feminina na medicina, existe um adoecimento progressivo, marcado por burnout, ansiedade, depressão e até risco aumentado de suicídio.
Dados apresentados durante a palestra mostram que a prevalência global de burnout entre médicas é elevada, com índices entre 44% e 54%, tendo chegado a patamares ainda mais altos durante a pandemia. Nesse período, a sobrecarga feminina se intensificou, já que muitas médicas seguiram trabalhando na linha de frente enquanto acumulavam preocupações com filhos em casa, familiares idosos e a ruptura das redes de apoio.
A dirigente também destacou que as médicas apresentam maior risco de depressão e ansiedade do que os homens médicos, e chamou atenção para um dado especialmente grave: o risco de suicídio entre mulheres médicas é superior ao da população feminina em geral. Segundo ela, esse é um alerta que precisa ser encarado com seriedade por toda a categoria e pelas instituições.
Entre os fatores que contribuem para esse adoecimento, Cláudia Paola citou a dupla e até tripla jornada, o cuidado contínuo com filhos, pais e familiares, a carga emocional do exercício da medicina, as microagressões e o assédio no ambiente de trabalho, além das dificuldades de ascensão na carreira.
Outro ponto central de sua fala foi o impacto fisiológico do estresse crônico. A palestrante explicou que a sobrecarga constante rompe o equilíbrio do organismo e provoca alterações mensuráveis, relacionadas ao aumento do estresse biológico, da inflamação e do risco de adoecimento físico e mental. Segundo ela, o sofrimento não é apenas subjetivo: ele também se expressa no corpo.
No contexto brasileiro, Cláudia Paola apontou fatores que agravam esse quadro, como condições precárias de trabalho, múltiplos vínculos empregatícios, plantões exaustivos, falta de infraestrutura, ausência de políticas ocupacionais efetivas e medo de denunciar assédio ou buscar ajuda por receio de represálias e estigma.
Ela também chamou atenção para a cultura da invulnerabilidade na medicina, que faz com que muitos profissionais, especialmente médicas, tenham dificuldade em admitir sofrimento emocional e procurar tratamento. Segundo a palestrante, ainda existe a falsa ideia de que adoecer mentalmente seria sinal de fraqueza ou incapacidade profissional.
Diante desse cenário, Cláudia Paola defendeu que o enfrentamento do problema precisa ir além da responsabilização individual. Para ela, não basta exigir resiliência das mulheres. É necessário combinar estratégias pessoais de cuidado com mudanças organizacionais e institucionais.
Entre as medidas com evidências de eficácia, ela citou práticas de mindfulness, terapias cognitivo-comportamentais, fortalecimento de redes de apoio entre mulheres, programas de mentoria, mecanismos seguros de denúncia de assédio, flexibilização de horários em situações específicas e criação de políticas permanentes de bem-estar nos ambientes de trabalho.
A palestrante também defendeu que a formação médica passe a discutir com mais profundidade temas como gênero, adoecimento psíquico, assédio e proteção à saúde do profissional, além da produção de mais dados sobre a realidade específica das médicas no Brasil.
Ao encerrar, Cláudia Paola reforçou que a crise de saúde mental vivida pelas médicas é multifatorial, mensurável e urgente. Para ela, o silêncio em torno desse sofrimento precisa ser rompido. “A responsabilidade pela mudança é coletiva. O silêncio perpetua o problema”, afirmou.
