Os impactos da precarização do trabalho médico sobre a saúde física das mulheres foram tema da palestra de Cláudia Beatriz Câmara de Andrade Silva, vice-presidente do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco e diretora do Sindicato dos Médicos de Pernambuco, durante o 1º Congresso da Mulher Médica da Federação Médica Brasileira, em Maceió (AL).
Em sua fala, Cláudia Beatriz propôs uma reflexão sobre os diversos fatores que interferem na saúde da mulher médica, entre eles as jornadas exaustivas, a dupla ou tripla jornada, a precarização dos vínculos de trabalho, a violência sofrida no exercício profissional e a dificuldade de manter o autocuidado em meio à rotina intensa da profissão.
A palestrante destacou que a presença feminina na medicina cresceu rapidamente na última década. Se antes as mulheres representavam cerca de 40% da categoria, hoje já são maioria, alcançando 51% dos profissionais médicos, segundo dados recentes da demografia médica. No entanto, esse avanço quantitativo não significou, na mesma proporção, melhores condições de trabalho, proteção à maternidade, igualdade salarial ou qualidade de vida.
Segundo Cláudia Beatriz, muitas médicas pagaram um preço alto para ocupar espaços de liderança e consolidar suas carreiras. Em muitos casos, isso significou abrir mão de momentos importantes da maternidade, da convivência familiar e do próprio cuidado com a saúde.
Ela observou que a desigualdade de gênero ainda se expressa em diferentes frentes, como remuneração menor, maior sobrecarga de tarefas invisíveis, dificuldade de ascensão estratégica e violência cotidiana nos ambientes de trabalho. Para a dirigente, não basta que a mulher esteja presente na medicina. É preciso que ela também ocupe espaços de decisão, gestão e formulação de estratégias.
Outro ponto de destaque foi a discussão sobre expectativa de vida. Cláudia Beatriz citou estudos que apontam que médicas podem ter redução importante na expectativa de vida em comparação com outras mulheres, o que acende um alerta sobre os efeitos acumulados do estresse, do excesso de trabalho e da negligência com o autocuidado.
Ela ressaltou que o burnout, o adoecimento mental, a automedicação e o adiamento de consultas e exames preventivos fazem parte da rotina de muitas médicas. Segundo a palestrante, parte relevante dessas profissionais posterga o próprio cuidado por falta de tempo ou por priorizar sempre outras demandas antes de si mesmas.
A palestra também abordou os impactos da formação médica e da residência sobre a vida reprodutiva das mulheres. O longo período de graduação, especialização e inserção no mercado empurra a maternidade para mais tarde e muitas vezes leva ao adiamento ou até à renúncia desse projeto. Mesmo com garantias legais, como a licença-maternidade na residência médica, ainda há barreiras práticas e institucionais que dificultam a gestação, a amamentação e a permanência da mulher nesses espaços.
Cláudia Beatriz também chamou atenção para a violência sofrida por médicas. Ela citou diferentes formas de agressão presentes no cotidiano, como violência verbal, assédio moral, assédio sexual, violência física e violência institucional. Segundo ela, muitas dessas situações são tão naturalizadas que deixam de ser percebidas como violência, embora provoquem desgaste, sofrimento e adoecimento.
Dados mencionados na apresentação apontam índices elevados de violência contra médicos, com destaque para agressões verbais, assédio moral e assédio sexual. Para a palestrante, esse cenário exige não apenas indignação, mas também registro, denúncia e construção de soluções institucionais.
Ao tratar das relações de trabalho, Cláudia Beatriz comparou os efeitos dos vínculos formais e dos contratos por pessoa jurídica sobre a vida das médicas. Ela lembrou que, na CLT ou no regime estatutário, existem garantias como licença-maternidade, estabilidade gestacional, férias remuneradas e, em alguns casos, adicionais de insalubridade. Já na pejotização, esses direitos costumam desaparecer, exigindo planejamento individual e deixando a profissional mais vulnerável.
Ainda assim, a dirigente ressaltou que mesmo os vínculos formais não resolvem todos os problemas. A desigualdade salarial, a sobrecarga, a dificuldade para amamentar, a limitação do descanso e a falta de apoio à mulher médica continuam presentes, mesmo onde há contrato regular.
Na parte final da palestra, Cláudia Beatriz defendeu medidas concretas para preservar a saúde física das médicas, como o estabelecimento de limites saudáveis de carga horária, a priorização do sono, da alimentação e da atividade física, a realização de exames preventivos, a busca por suporte psicológico e a construção de redes de apoio entre colegas e familiares.
Para ela, o futuro da medicina passa necessariamente pelo reconhecimento de que a mulher médica não pode seguir adoecendo para sustentar o funcionamento do sistema. Cuidar da saúde dessas profissionais é também cuidar da qualidade da assistência prestada à população.
