A médica Nástia Irina de Sousa Santos, conselheira fiscal da Federação Médica Brasileira e diretora de Assistência Jurídica, Defesa Profissional e Condições de Trabalho do Sindicato dos Médicos do Pará, apresentou no 1º Congresso da Mulher Médica da Federação Médica Brasileira o tema “Políticas trabalhistas”, trazendo uma reflexão sobre as desigualdades estruturais que ainda marcam a presença feminina na medicina.
Em sua exposição, ela destacou que, embora as mulheres já representem a maioria da profissão médica no Brasil, essa realidade ainda não se traduz em igualdade nos espaços de poder, decisão e liderança dentro das entidades médicas e das instituições de saúde. Segundo Nástia, essa baixa representação feminina revela um problema estrutural que precisa ser enfrentado.
A médica ressaltou que o debate sobre o trabalho médico não pode ser limitado apenas ao trabalho produtivo realizado nos serviços de saúde. É necessário considerar também o chamado trabalho reprodutivo, relacionado às responsabilidades domésticas e familiares, que frequentemente recaem de forma desproporcional sobre as mulheres e impactam diretamente a carreira das médicas.
Durante a apresentação, Nástia também compartilhou parte de sua trajetória profissional e militante. Formada em medicina em 1985, iniciou sua atuação no movimento sindical ainda na década de 1980, participando de discussões sobre saúde do trabalhador e negociações coletivas voltadas à proteção das mulheres no ambiente de trabalho.
Nesse contexto, destacou a influência da socióloga Elisabeth Souza Lobo, referência nos estudos sobre trabalho, classe social e gênero no Brasil. Segundo Nástia, os conceitos desenvolvidos pela pesquisadora — como divisão sexual do trabalho e desigualdade de gênero nas relações laborais — continuam sendo fundamentais para compreender as desigualdades presentes no mundo do trabalho.
A partir dessa perspectiva, a médica explicou que diversos estudos nacionais e internacionais demonstram que as desigualdades entre homens e mulheres também estão presentes na medicina. Essas diferenças aparecem na remuneração, no acesso a cargos de liderança e nas oportunidades de progressão profissional.
Outro ponto abordado foi a distinção entre feminização e desvalorização do trabalho. A feminização da medicina refere-se ao aumento do número de mulheres na profissão. No entanto, historicamente, esse crescimento em diversas áreas veio acompanhado de processos de desvalorização salarial e redução do reconhecimento social do trabalho.
Nástia também ressaltou que a realidade das médicas no Brasil não é homogênea. Existem diferenças importantes relacionadas às regiões do país, às condições de trabalho e aos diferentes vínculos profissionais existentes na medicina.
Diante desse cenário, ela defendeu a necessidade de ampliar estudos e levantamentos sobre o trabalho médico feminino, envolvendo sindicatos, universidades e instituições de pesquisa. Segundo a médica, compreender melhor essas desigualdades é essencial para formular políticas trabalhistas capazes de enfrentá-las de forma efetiva.
Ao encerrar sua participação, destacou que a construção de um ambiente profissional mais justo depende da organização coletiva da categoria, do fortalecimento das entidades médicas e da ampliação da participação feminina nos espaços de decisão. Segundo ela, somente com mobilização, produção de conhecimento e atuação institucional será possível avançar na superação das desigualdades de gênero na medicina.
