A feminização da medicina e os desafios enfrentados pelas mulheres no mundo do trabalho foram tema da apresentação realizada durante o 1º Congresso da Mulher Médica da Federação Médica Brasileira, em Maceió (AL). A conferência abordou as políticas trabalhistas que impactam diretamente a carreira das médicas, especialmente as mais jovens.
Logo no início, foi destacado o caráter histórico do encontro e a importância de discutir os direitos das mulheres dentro da profissão médica. Atualmente, as mulheres já representam a maioria da categoria no Brasil, realidade consolidada a partir de 2025. No entanto, apesar desse avanço numérico, as desigualdades persistem em diversas dimensões da carreira.
Para compreender o momento atual, a apresentação trouxe um resgate histórico da presença feminina na medicina. Durante séculos, as mulheres foram impedidas de estudar ou exercer a profissão. Um dos exemplos citados foi o da médica Margaret Buckley, que precisou assumir identidade masculina para conseguir estudar e atuar como médica no século XIX. Somente após sua morte descobriu-se que se tratava de uma mulher.
No Brasil, o caminho também foi marcado por barreiras. A médica Maria Augusta Estrela tornou-se a primeira brasileira formada em medicina, em 1881, mas precisou estudar nos Estados Unidos, já que as faculdades brasileiras não aceitavam mulheres. Apenas alguns anos depois, Rita Lobato conseguiu se formar em território nacional, tornando-se a primeira médica diplomada no país. Outra referência histórica lembrada foi Maria Odília Teixeira, a primeira mulher negra a se formar em medicina na Bahia, enfrentando simultaneamente o racismo e o machismo estrutural da época.
Segundo a apresentação, a feminização da medicina é resultado de mudanças sociais e legais importantes. Um marco citado foi o Estatuto da Mulher Casada, de 1962, que passou a permitir que mulheres ingressassem no ensino superior sem autorização do marido. Ao longo das décadas seguintes, políticas educacionais e expansão do ensino superior também contribuíram para ampliar a presença feminina na formação médica.
Apesar desse avanço, a desigualdade de condições de trabalho ainda é uma realidade. Estudos recentes indicam que médicas continuam enfrentando maior sobrecarga de trabalho, dupla ou tripla jornada, menor acesso a cargos de liderança, maior exposição à violência e maior prevalência de transtornos mentais relacionados ao trabalho.
Dados apresentados indicam que médicas em início de carreira, especialmente aquelas que atuam no setor público e em especialidades cirúrgicas, estão entre as mais impactadas negativamente pelas políticas trabalhistas atuais. Mesmo sendo maioria no mercado, muitas ocupam funções de menor remuneração e enfrentam maiores obstáculos para ascender a cargos de gestão.
Entre os fatores estruturais apontados está o chamado “teto de vidro”, uma barreira invisível que impede a ascensão das mulheres aos níveis mais altos de liderança. Embora possuam a mesma capacidade técnica e formação que os homens, muitas médicas ainda encontram dificuldades para alcançar posições estratégicas em hospitais, instituições de ensino e organizações médicas.
Outro ponto abordado foi a violência no ambiente de trabalho. Estudos citados apontam que mais da metade dos profissionais da saúde já sofreu algum tipo de violência laboral, incluindo assédio moral e sexual. Esse cenário contribui diretamente para o adoecimento mental e para a redução da qualidade de vida das profissionais.
Diante desse contexto, a apresentação defendeu a implementação de políticas trabalhistas voltadas à equidade de gênero. Entre as medidas propostas estão auditorias salariais, transparência nas remunerações, planos de correção de desigualdades salariais, combate institucional ao assédio, aumento da presença feminina em cargos de liderança, além da criação de estruturas de apoio como creches, salas de amamentação e programas de suporte psicológico.
Também foi ressaltada a necessidade de discutir modelos de contratação que vêm se expandindo na medicina, como a pejotização e as sociedades médicas. Embora frequentemente apresentadas como alternativas de autonomia profissional, essas formas de contratação podem reduzir garantias trabalhistas e transferir riscos financeiros ao médico.
A apresentação destacou ainda a importância da educação financeira para os profissionais da saúde, especialmente aqueles que atuam como autônomos ou pessoa jurídica, reforçando a necessidade de planejamento financeiro, reserva de emergência e compreensão dos riscos contratuais.
Outro tema defendido foi a criação de uma carreira de Estado para médicos no Sistema Único de Saúde (SUS), proposta considerada fundamental para garantir estabilidade, reduzir desigualdades regionais e fortalecer a presença médica em áreas mais vulneráveis do país.
Ao final, foi ressaltado que a defesa dos direitos da mulher médica depende da atuação conjunta de diferentes instituições da medicina, incluindo sindicatos, entidades médicas e conselhos profissionais. Segundo a apresentação, apenas a atuação coletiva e organizada será capaz de enfrentar a precarização do trabalho e construir um ambiente profissional mais justo e equilibrado.
A mensagem final reforçou que conhecer os direitos, exigir contratos transparentes, participar das decisões institucionais e fortalecer as entidades representativas são passos essenciais para transformar a realidade da profissão médica e garantir melhores condições de trabalho para as novas gerações.
