Evento da Federação Médica Brasileira, realizado em Maceió, discutiu mercado de trabalho, saúde física e mental, direitos trabalhistas e participação política das médicas no país
O 1º Congresso da Mulher Médica da Federação Médica Brasileira (FMB) reuniu, em Maceió (AL), médicas, dirigentes sindicais, advogadas e especialistas de diversas regiões do país para discutir os desafios enfrentados pelas mulheres no exercício da medicina. Realizado nos dias 12 e 13 de março, o encontro promoveu debates sobre mercado de trabalho, saúde física e mental, direitos trabalhistas, violência de gênero e participação política das médicas.
Durante a abertura, lideranças da Federação destacaram o caráter histórico do evento e o crescimento da presença feminina na profissão. Atualmente, as mulheres já representam a maioria entre os médicos em atividade no Brasil, mas ainda enfrentam desigualdades estruturais no mercado de trabalho e nos espaços de decisão.
Mercado de trabalho e precarização da medicina
A mesa sobre mercado de trabalho reuniu dirigentes sindicais que analisaram as transformações recentes na profissão. A médica Ana Carolina Tabosa, presidente do Sindicato dos Médicos de Pernambuco e secretária-geral da FMB, destacou que o crescimento da presença feminina ocorre em um contexto de vínculos cada vez mais precários e redução de direitos trabalhistas.
A médica Andréa Lúcia Rezende Martins Donato, diretora de Saúde Suplementar do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais, abordou a relação entre médicos e operadoras de planos de saúde, apontando dificuldades na negociação de honorários, glosas e perda de autonomia profissional.
Encerrando a mesa, Janice Painkow, diretora de Relações Institucionais e de Assuntos Legislativos da FMB e diretora financeira do Sindicato dos Médicos do Tocantins, discutiu a chamada “uberização” da saúde. Segundo ela, plataformas digitais e novos modelos de contratação têm ampliado a precarização do trabalho médico.
Saúde da mulher médica e adoecimento profissional
A saúde física e mental das médicas também foi tema central do congresso. A médica Walnéia Cristina de Almeida Moreira, diretora administrativa do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais, apresentou dados sobre o adoecimento da mulher médica, incluindo índices elevados de burnout, ansiedade e depressão.
A vice-presidente do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco e diretora do Sindicato dos Médicos de Pernambuco, Cláudia Beatriz Câmara de Andrade Silva, falou sobre os impactos da sobrecarga de trabalho e das múltiplas jornadas na saúde física das médicas.
Já a médica Cláudia Paola Carraso Aguilar, diretora de Educação Médica e Formação Profissional da FMB e secretária-geral do Sindicato dos Médicos do Paraná, abordou a saúde mental das profissionais e os fatores estruturais que contribuem para o sofrimento psíquico na profissão.
Violência, direitos e proteção jurídica
A advogada Helenice de Moraes apresentou uma conferência sobre violência contra a mulher no exercício da medicina. Ela destacou a ocorrência de assédio moral e sexual, discriminação e outras formas de violência no ambiente de trabalho, defendendo a criação de mecanismos de denúncia e acolhimento às vítimas.
Na conferência sobre direitos da mulher médica, a advogada Maria José Vasconcelos Torres explicou os direitos trabalhistas e constitucionais que protegem as profissionais. A especialista alertou para os riscos da pejotização e reforçou a importância de conhecer a legislação para evitar vínculos precários.
Políticas trabalhistas e desigualdade de gênero
A médica Nástia Irina de Sousa Santos, conselheira fiscal da FMB e diretora de Assistência Jurídica, Defesa Profissional e Condições de Trabalho do Sindicato dos Médicos do Pará, apresentou uma análise sobre políticas trabalhistas e desigualdade de gênero na medicina. Ela ressaltou que a presença feminina crescente na profissão não eliminou diferenças salariais, dificuldades de ascensão profissional e barreiras estruturais que ainda limitam a participação das médicas em posições de liderança.
A médica Adalgele Blois, vice-presidente do Sindicato dos Médicos do Tocantins, também abordou as dificuldades enfrentadas pelas médicas jovens no mercado de trabalho. Segundo ela, mesmo sendo maioria entre os profissionais mais novos, as mulheres ainda enfrentam desigualdades salariais, violência e menor presença em cargos de gestão.
A médica e vereadora de Maceió Maria de Fátima Galina Fortes Ferreira Santiago trouxe uma reflexão sobre a trajetória das mulheres na política. Em sua palestra, destacou a luta histórica pelo direito ao voto e pela participação nos espaços de poder.
Ela chamou atenção para a baixa presença feminina nos parlamentos brasileiros e defendeu que mais mulheres, incluindo médicas, participem da política institucional para ampliar a defesa de direitos e políticas públicas voltadas à população.
Avaliação positiva do congresso
Ao final do evento, o presidente da Federação Médica Brasileira, Fernando Mendonça, destacou a importância do encontro. “Foi um momento histórico para a Federação e para as médicas do país. O congresso trouxe debates fundamentais e reafirmou nosso compromisso com a valorização profissional e com melhores condições de trabalho para a categoria”, afirmou.
A diretora da Mulher Médica da FMB, Edilma de Albuquerque Lins Barbosa, também celebrou o sucesso do congresso realizado em Maceió. “Tivemos dois dias de debates profundos, troca de experiências e construção coletiva de propostas. O encontro fortalece a presença e a voz das médicas no movimento sindical e nas discussões sobre o futuro da medicina”, destacou.
O congresso também foi o momento de comemorar os 10 anos da Federação Médica Brasileira, reafirmando o compromisso da entidade com a defesa da medicina e com a valorização das médicas e médicos em todo o país.
