A precarização das relações de trabalho e os impactos da pejotização sobre a permanência das mulheres na medicina foram temas centrais da palestra de Ana Carolina Tabosa, presidente do Sindicato dos Médicos de Pernambuco e recém-aclamada secretária-geral da Federação Médica Brasileira, durante o 1º Congresso da Mulher Médica da FMB, realizado em Maceió (AL).
Ao iniciar sua apresentação, Ana Carolina agradeceu a confiança das entidades médicas pela escolha de seu nome para a Secretaria-Geral da FMB e destacou que o reconhecimento do potencial das mulheres precisa avançar dentro das instituições e do próprio mercado de trabalho. Segundo ela, ainda é comum que homens ascendam pelo potencial percebido, enquanto mulheres precisam provar sua capacidade por meio do trabalho já realizado.
Entrando no tema da palestra, a dirigente destacou que a medicina vive uma transformação estrutural. Em 2025, as mulheres já representam 51% dos médicos no Brasil, e a tendência é de crescimento, podendo alcançar 56% da força de trabalho médica até 2035. Entre os estudantes de medicina, as mulheres já são maioria, com cerca de 61% das matrículas.
Apesar desse avanço numérico, Tabosa alertou que o mercado de trabalho não tem acompanhado essa transformação com mecanismos de proteção. Um dos principais fatores é a redução dos vínculos formais. Enquanto em 2012 cerca de 54% dos médicos possuíam contratos formais, em 2023 esse número caiu para 33,3%.
Segundo ela, essa mudança ocorre justamente no momento em que a profissão se torna majoritariamente feminina. “Estamos vivendo uma realidade de mais mulheres e menos proteção no mercado de trabalho”, afirmou.
A dirigente explicou que a pejotização, quando utilizada de forma fraudulenta, transfere riscos ao profissional e fragiliza direitos essenciais, como férias, décimo terceiro salário, previsibilidade de renda, proteção previdenciária e segurança durante períodos de maternidade ou doença.
Ana Carolina ressaltou que esses impactos recaem de forma mais intensa sobre as mulheres, especialmente diante da dupla jornada e das responsabilidades familiares. Essa sobrecarga também se reflete na saúde mental das médicas. Dados apresentados por ela indicam que 46,8% das mulheres médicas relatam algum transtorno mental, sendo 39,9% ansiedade e 25,3% depressão.
Outro ponto abordado foi a desigualdade dentro das especialidades médicas. Embora haja forte presença feminina em áreas como dermatologia e pediatria, especialidades associadas a maior prestígio e remuneração ainda permanecem predominantemente masculinas.
Carolina também destacou estudos internacionais que demonstram que médicas frequentemente apresentam melhores desfechos clínicos para pacientes, mas ainda recebem remuneração menor e avaliações mais críticas, o que evidencia desafios culturais persistentes.
Para ela, o debate sobre pejotização vai além da relação individual de trabalho. A precarização também afeta a previdência social, enfraquece a negociação coletiva e impacta o funcionamento do sistema de saúde.
Como encaminhamento, a dirigente defendeu que sindicatos e entidades médicas ampliem a discussão sobre vínculos de trabalho, proteção à maternidade, saúde mental e combate ao assédio, além de produzir dados sobre renda, violência e condições de trabalho das médicas.
“Não basta exigir resiliência individual. É preciso redesenhar o modelo de trabalho para que a medicina seja compatível com a realidade das médicas”, concluiu.
