As transformações tecnológicas e a chamada “uberização” do trabalho médico foram temas da palestra de Janice Painkow, diretora de Relações Institucionais e de Assuntos Legislativos da Federação Médica Brasileira e diretora financeira do Sindicato dos Médicos do Tocantins, durante o 1º Congresso da Mulher Médica da FMB, realizado em Maceió (AL).
Em sua apresentação, Janice Painkow destacou que a organização do trabalho em diversas áreas da economia vem sendo profundamente alterada pela digitalização e pelo surgimento de plataformas que intermediam serviços. Esse modelo, segundo ela, já impacta diretamente a medicina, especialmente com o avanço da telemedicina e de aplicativos que conectam médicos e pacientes.
Para a dirigente, a promessa de modernização, flexibilidade e empreendedorismo muitas vezes esconde novas formas de controle e subordinação do trabalho. “A plataforma se apresenta como mediadora, mas na prática ela controla a demanda, define regras e monitora o profissional por meio de dados e algoritmos”, explicou.
Janice comparou esse modelo ao que ocorreu no transporte por aplicativos, no qual profissionais são classificados como autônomos, embora estejam sujeitos à lógica de funcionamento das plataformas digitais.
Na medicina, esse fenômeno se manifesta principalmente na expansão da telemedicina e de serviços digitais de consulta. Embora reconheça os avanços trazidos pela tecnologia, como maior acesso à assistência em regiões remotas, continuidade do cuidado e redução de barreiras geográficas, a dirigente alertou para os riscos associados ao modelo.
Entre os benefícios, ela citou a possibilidade de ampliar o acesso à saúde, facilitar o acompanhamento de pacientes e reduzir custos estruturais de atendimento. No entanto, também apontou efeitos negativos importantes, como a transferência de custos para os médicos, fragilização da relação médico-paciente, precarização das condições de trabalho e riscos à segurança de dados.
Segundo Janice Painkow, muitas plataformas eliminam custos fixos de clínicas e estruturas físicas, mas transferem despesas de infraestrutura e operação para os profissionais, ao mesmo tempo em que ficam com parte significativa do valor das consultas. Em alguns casos, afirmou, consultas médicas podem ser ofertadas por valores muito baixos, com repasses reduzidos aos médicos.
A dirigente também destacou que a chamada pejotização tem sido utilizada como mecanismo para mascarar relações de emprego e reduzir custos empresariais. Nesse modelo, o médico passa a atuar como pessoa jurídica, sem acesso a direitos trabalhistas como férias remuneradas, descanso semanal, proteção previdenciária ou licença por doença ou maternidade.
Embora a pejotização seja frequentemente apresentada como autonomia profissional, a dirigente sindical afirmou que, na prática, ela pode resultar em jornadas mais extensas, instabilidade financeira e maior vulnerabilidade.
Outro ponto de preocupação apontado foi o impacto dessas mudanças na formação médica. Segundo ela, as escolas médicas precisam se adaptar para preparar os profissionais para um ambiente de trabalho cada vez mais mediado por tecnologia, sem perder os fundamentos da prática clínica tradicional.
“A educação médica precisa incorporar competências digitais, mas sem abandonar a essência da medicina, que é a relação humana entre médico e paciente”, afirmou.
Janice Painkow também chamou atenção para a mudança na forma como médicos passam a ser avaliados dentro das plataformas digitais. Rankings, avaliações de usuários e métricas algorítmicas podem substituir gradualmente os critérios tradicionais de reputação profissional baseados em formação, experiência e reconhecimento entre pares.
Para a dirigente, esse cenário exige reflexão ética e ação coletiva da categoria médica. Ela defendeu que inovação tecnológica deve caminhar junto com a garantia de condições dignas de trabalho e segurança para os pacientes.
Ela também destacou a importância da atuação das entidades médicas, dos sindicatos e das instituições reguladoras na fiscalização dessas novas formas de organização do trabalho. Segundo ela, a defesa do ato médico no ambiente digital será um dos grandes desafios da profissão nos próximos anos.
“A tecnologia pode e deve contribuir para melhorar o cuidado em saúde. Mas a inovação só é legítima quando preserva a dignidade do trabalho médico e a segurança do paciente”, concluiu.
