A sobrecarga, o adoecimento silencioso e a falta de proteção adequada às mulheres na medicina marcaram a palestra de Walnéia Cristina de Almeida Moreira, diretora administrativa do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais, durante o 1º Congresso da Mulher Médica da Federação Médica Brasileira, realizado em Maceió (AL).
Ao abordar o tema, Walnéia chamou atenção para um paradoxo que acompanha a medicina brasileira: ao mesmo tempo em que cresce a presença feminina na profissão, também aumenta um processo silencioso de adoecimento entre as médicas. Segundo ela, a ampliação da participação das mulheres não foi acompanhada por mudanças estruturais e organizacionais capazes de garantir condições mais justas de trabalho e de vida.
A palestrante destacou que, por trás dos avanços numéricos, permanece uma realidade de dupla jornada, sobrecarga emocional, trabalho doméstico não remunerado, maternidade sem o devido suporte e dificuldades para reconhecer o próprio adoecimento. “Muitas vezes, a mulher médica cuida de todos, mas adia o cuidado de si mesma”, observou.
Walnéia apresentou dados que reforçam a gravidade desse cenário. Segundo ela, estudos mostram que mulheres médicas se suicidam mais do que homens médicos, em contraste com o que ocorre na população geral, na qual os homens apresentam maiores taxas de suicídio. Outro dado alarmante apontado foi a redução da expectativa de vida das médicas em mais de dez anos quando comparadas às mulheres da população em geral.
Na avaliação da dirigente, parte dessa diferença está relacionada à ausência de vínculos de trabalho mais protegidos. Ela comparou a realidade das médicas com a de outras profissionais, como policiais, delegadas, advogadas e servidoras públicas, que frequentemente contam com contratos mais estáveis, licença-maternidade, apoio à amamentação, faltas justificadas para cuidados familiares e maior previsibilidade de jornada.
Segundo Walnéia, a mulher foi inserida na medicina sem que houvesse uma transformação proporcional nas estruturas de trabalho. O resultado é uma combinação de carga horária elevada, dupla jornada, assédio, desigualdades de gênero e insegurança profissional, fatores que impactam diretamente a saúde física e mental das médicas.
Ela também destacou que, embora as mulheres avancem numericamente, ainda existe uma distribuição desigual entre as especialidades. Hoje, elas predominam em áreas como dermatologia, pediatria, alergia e imunologia, endocrinologia, geriatria e ginecologia, enquanto seguem em menor número em especialidades como urologia, ortopedia, neurocirurgia e cirurgia geral. Para a palestrante, isso revela a permanência de uma segregação dentro da profissão, com maior presença feminina nas áreas ligadas ao cuidado e maior predomínio masculino em especialidades cirúrgicas e historicamente mais valorizadas.
Outro ponto central da palestra foi o impacto do sofrimento ocupacional na saúde mental. Walnéia afirmou que o burnout é hoje o marcador mais robusto desse adoecimento. Entre médicos em geral, a prevalência varia conforme os critérios utilizados nos estudos, mas, durante a pandemia, médicas brasileiras chegaram a apresentar índices superiores a 60%.
Ela lembrou que, no período da covid-19, muitas médicas continuaram na linha de frente ao mesmo tempo em que perderam redes de apoio em casa, como babás, escolas e familiares disponíveis para auxiliar no cuidado com os filhos. Isso ampliou a exaustão física e emocional.
A palestra também destacou a alta prevalência de ansiedade, depressão, distúrbios do sono e uso problemático de álcool e outras substâncias entre médicas, além de apontar que a subnotificação desses quadros é ainda maior entre mulheres, em razão do estigma.
Walnéia ressaltou que o adoecimento não pode ser tratado apenas como uma vulnerabilidade individual. Para ela, trata-se de uma exposição ocupacional diferenciada, que exige respostas institucionais. Entre as medidas defendidas, estão controle de carga horária, escalas previsíveis, combate ao assédio, programas de bem-estar, suporte à maternidade e redes de apoio efetivas.
Ela observou ainda que estratégias individuais, como psicoterapia, cuidado com o sono e apoio social, são importantes, mas insuficientes se não houver mudanças organizacionais mais profundas.
Ao encerrar, Walnéia defendeu que cuidar da saúde da mulher médica não é apenas proteger uma profissional, mas preservar a qualidade da assistência e a sustentabilidade do próprio sistema de saúde. “A medicina que queremos para o futuro depende, necessariamente, de mulheres saudáveis”, afirmou.
