Nos dias 12 e 13 de março de 2026, o Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sinmed-MG), representado pela diretoras: Ana Laura Rabelo (Relações com Acadêmicos), Andrea Donato (Saúde Suplementar), Fabíola de Souza (Comunicação) e Walnéia Moreira (Administrativo) estiveram presentes no 1º Congresso da Mulher Médica, promovido pela Federação Médica Brasileira (FMB) em Maceió, Alagoas.
Esse importante congresso trouxe à tona a nova demografia médica no Brasil, o cenário do mercado de trabalho para as médicas de nosso país e a realidade da mulher brasileira, que embora constitucionalmente conte com os mesmos direitos e deveres do homem, ainda hoje, quase 40 anos depois da Constituição Cidadã, vive uma realidade de sobrecarga, violência, preconceito e descrédito, o que suscitou reflexões sobre as origens dos problemas enfrentados pelas mulheres na medicina e nos fez pensar em propostas em prol de uma realidade mais justa e equânime para a mulher médica, com reflexos positivos para toda a sociedade brasileira.

Reflexão sobre as transformações recentes no perfil da categoria médica e das mulheres médicas
A presente carta de intenções é fruto do 1º Congresso da Mulher Médica da FMB e tem como objetivo refletir sobre as transformações recentes no perfil da categoria médica, os seus impactos na vida e carreira da mulher médica e propor diretrizes concretas para o Sinmed-MG no sentido de enfrentar as desigualdades estruturais que persistem no exercício da medicina.
Nas últimas décadas houve uma mudança significativa na composição da força de trabalho médica, com crescimento constante do número de mulheres nas faculdades de Medicina, sendo as mulheres mais de 50% da força de trabalho ativa dos médicos no Brasil. Se de um lado essa transformação do perfil profissional representa uma vitória e reflete a luta feminina por emancipação, com mais mulheres tendo a chance de estudar e se profissionalizar, por outro lado observa-se que essa transformação demográfica ocorreu concomitante à precarização dos vínculos de trabalho e à redução da remuneração média dos médicos no Brasil, sobretudo quando comparada a outras categorias profissionais, o que suscita reflexões sobre a valorização da atividade médica e seus determinantes históricos e sociais.
Apesar de as mulheres já constituírem a maioria entre os médicos, essa presença não se traduz em uma distribuição equitativa nas diversas áreas de atuação. Ainda se verifica sua sub-representação nas especialidades cirúrgicas, bem como naquelas de maior prestígio social e melhor remuneração. De modo semelhante, a ampliação da participação feminina não resultou em avanços proporcionais na ocupação de cargos de liderança, evidenciando a persistência de barreiras estruturais que limitam o pleno desenvolvimento profissional das médicas.
Desigualdade de gêneros
Nesse contexto, a desigualdade de gênero manifesta-se de múltiplas formas, abrangendo desde práticas sutis, como o silenciamento, a interrupção e o preterimento, até expressões mais explícitas, incluindo a violência física. Soma-se a isso a permanência de preconceitos tanto por parte de pacientes quanto de outros profissionais de saúde, uma vez que a figura masculina ainda é frequentemente associada a maior autoridade e confiança no exercício da medicina.
A compreensão dessas disparidades exige uma análise de suas raízes culturais e sociais. O homem ainda é amplamente percebido como líder natural, com expectativas sociais que favorecem sua dedicação integral ao trabalho e sua relativa desobrigação em relação às responsabilidades domésticas e familiares. Por outro lado, a mulher é frequentemente vista como executora, sendo socialmente incumbida de conciliar as demandas profissionais com as responsabilidades familiares, além de lidar com pressões relacionadas à estética e ao etarismo, que impactam de maneira desproporcional sua trajetória profissional.
Medidas efetivas de transformação
Diante desse cenário, torna-se imperativo avançar para além do diagnóstico e propor medidas efetivas de transformação. Entre as ações prioritárias, destaca-se a implementação de programas de aceleração de lideranças femininas nos locais de trabalho e também nas entidades médicas. Sendo capazes de promover maior equidade nos espaços de decisão, além da adoção cotas equitativas para mulheres nas entidades representativas, assegurando que essas instituições reflitam de forma mais fiel a composição atual da categoria médica, com polos de formação de lideranças dentro das entidades.
No que tange aos trabalhadores sob regime estatutário e celetista, é fundamental que nos acordos coletivos sejam pautados temas como a ampliação da licença-paternidade, que tem como função principal incentivar uma divisão mais justa das responsabilidades familiares, a criação de licenças remuneradas destinadas ao cuidado de filhos, pais idosos ou familiares enfermos, além de oferta de creches ou auxílio-creche para as mães médicas, forma importante de assegurar melhores condições de permanência e progressão na carreira. Tais demandas também devem ser levadas para discussão nas mesas de negociação que envolvam trabalhadores sob regime de pessoa jurídica e trabalhadores de cooperativas médicas e demais vínculos, além de serem levados para discussão ampliada junto a deputados e senadores sensíveis ao tema do trabalho médico e da igualdade de gênero.
Ações sindicais conjuntas e condições de trabalho
Também ressaltamos a necessidade de ações sindicais e ações conjuntas das entidades frente à decisão da Procuradoria-Geral da República no sentido de impedir que processos da Justiça do Trabalho sejam encaminhados para a Justiça Comum, o que torna as relações de trabalho mais assimétricas e mais desfavoráveis sobretudo às mulheres.
No que se refere às condições de trabalho, propõe-se a ampliação de intercâmbios e parcerias para avaliação de insalubridade e orientação aos profissionais da saúde suplementar, inclusive no que tange à aposentadoria. Paralelamente, ressalta-se a importância de intensificar a oferta de cursos sobre o trabalho médico, com ênfase na explicitação dos direitos e deveres nos diferentes vínculos laborais, contribuindo para maior conscientização da categoria.
Iniciativas em prol da mulher médica
A valorização da trajetória das mulheres na medicina também deve ser incentivada por meio da criação de cursos e iniciativas que resgatem a história da mulher na medicina, promovendo maior consciência e engajamento entre as profissionais. No âmbito econômico, destaca-se a necessidade de articulação entre entidades para revisão da Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos, com o objetivo de corrigir distorções que penalizam áreas de maior atuação feminina, frequentemente associadas a menores honorários.
Adicionalmente, torna-se fundamental fortalecer o diálogo com as acadêmicas de medicina, promovendo a presença das entidades sindicais nas universidades, desmistificando a percepção de partidarização e ampliando a comunicação por meio de canais digitais. A criação de iniciativas específicas, como planos de saúde para acadêmicos e a participação destes em ações sindicais e fiscalizatórias, pode contribuir significativamente para sua aproximação e engajamento, sobretudo tendo em vista o crescimento vertiginoso das mulheres nas faculdades. .
Por fim, destaca-se a necessidade de intensificar ações voltadas à regulação da abertura de novas escolas médicas, considerando os impactos da lógica de oferta e demanda sobre a qualidade da formação e as condições de trabalho da categoria, que tende a penalizar ainda mais as mulheres, tendo em vista a sobrecarga decorrente das jornadas duplas e triplas. Trata-se de um momento oportuno para a construção de estratégias que assegurem a sustentabilidade e a valorização da profissão médica no país.
Dessa forma, esta carta de intenções reafirma o compromisso com a promoção da equidade de gênero, a valorização do trabalho médico e o fortalecimento das entidades representativas, reconhecendo que a construção de um ambiente mais justo e inclusivo demanda ações estruturais, contínuas e articuladas.
