Dr. Marlus Volney de Morais_ Diretor Administrativo da FMB e presidente do SIMEPAR
A carreira médica nunca foi um caminho simples, tampouco foi tão desafiadora e multifacetada como no momento atual. Falar em gestão da carreira médica, hoje, exige compreender que o exercício da Medicina não se dá apenas na relação entre médico e paciente, mas dentro de um contexto social, econômico, regulatório e institucional que influencia diretamente as escolhas profissionais, os vínculos de trabalho e a sustentabilidade da vida médica ao longo do tempo.
Antes de qualquer análise, é fundamental reconhecer que carreira não é um evento pontual, mas um processo. Ela tem início, desenvolvimento e encerramento. Cada uma dessas fases demanda decisões específicas, estratégias distintas e, sobretudo, planejamento. Ignorar essa lógica é um dos principais fatores que levam médicos e médicas a enfrentarem insegurança profissional, sobrecarga de trabalho e dificuldades financeiras, justamente em uma profissão que exige estabilidade para o pleno exercício ético e técnico da Medicina.
Diferentes momentos, diferentes desafios
A carreira médica não é homogênea. Existe um espectro muito claro de trajetórias profissionais. Há o médico recém-formado, aquele que está nos primeiros cinco ou dez anos de atuação; os profissionais em fase intermediária, entre 10 e 25 anos de carreira; e aqueles que já alcançaram estabilidade ou caminham para uma desaceleração natural da atividade profissional, muitas vezes próximos da aposentadoria.
Os médicos em início de carreira são, sem dúvida, os mais vulneráveis. São eles que precisam ter maior cuidado com o futuro, não apenas no sentido técnico, mas também do ponto de vista financeiro e previdenciário. É nesse momento que se torna essencial compreender a importância de uma remuneração-base estável, que permita não apenas a subsistência, mas também a construção de reservas, investimentos e um projeto de aposentadoria digno. Preparar-se para o futuro não é uma opção, é uma necessidade.
Grande parte dos médicos, especialmente no início da carreira, não consegue ou simplesmente não tem condições de sustentar uma atividade plenamente autônoma. Diante disso, muitos acabam aceitando vínculos de trabalho precários, fora dos regimes da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ou das carreiras estatutárias.
É importante destacar que tanto a contratação CLT quanto a estatutária oferecem garantias fundamentais, como férias remuneradas, licenças, afastamento por doença, proteção previdenciária e maior previsibilidade de renda. Esses elementos não são privilégios, são condições mínimas para que o médico exerça sua profissão com tranquilidade e responsabilidade.
No entanto, o que se observa hoje é a imposição compulsória da pejotização. Médicos são obrigados a se constituir como pessoas jurídicas, perdendo direitos trabalhistas básicos e assumindo uma série de obrigações fiscais, contábeis e administrativas que não condizem com a realidade de quem está iniciando a carreira. Esse modelo aumenta a insegurança, dificulta o planejamento de vida e compromete, a longo prazo, a própria qualidade da assistência prestada.
Outro ponto central da gestão da carreira médica é a formação. O local onde o profissional se forma passa a ter peso crescente, especialmente diante da expansão acelerada dos cursos de Medicina. Hoje, cerca de 90% das escolas médicas em funcionamento no Brasil são privadas, o que implica altos custos de formação, frequentemente financiados por crédito público ou privado. Esse endividamento inicial pressiona o médico recém-formado a buscar rapidamente vínculos de trabalho que garantam renda, muitas vezes em condições desfavoráveis.
Além disso, é fundamental diferenciar a formação generalista da especializada. A especialização depende, majoritariamente, do acesso à Residência Médica, e esse acesso, hoje, infelizmente é limitado. Mais da metade dos profissionais que se formam não consegue acesso a uma residência, porque não há vagas suficientes para atender todo o volume que sai das universidades. Segundo o relatório Demografia Médica no Brasil 2025, da Associação Médica Brasileira (AMB), havia, em dezembro de 2024, pouco mais de 353 mil médicos especialistas, o que representa 59,1% do total de médicos. Os demais, 40,9%, atuavam como generalistas.
O mesmo relatório aponta que 63,7% dos títulos de especialista foram obtidos por meio de Residência Médica, enquanto 36,3% ocorreram via exames de título das sociedades médicas vinculadas à AMB. Isso evidencia o gargalo da falta de vagas que falei há pouco. Muitos acabam permanecendo por anos na atuação generalista, não por escolha, mas por falta de alternativa.
Nesse contexto, é importante apontarmos dados demográficos que ajudam a dimensionar o cenário. Segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM), o Brasil possuía, em 2024, quase 570 mil médicos ativos, o que corresponde a 2,81 médicos por 1.000 habitantes, a maior taxa já registrada no país. Esse crescimento é contínuo e tende a se intensificar nos próximos anos.
Pela primeira vez na história, as mulheres são maioria na Medicina brasileira, representando 50,9% dos médicos em 2025, com projeção de chegarem a 56% até 2035, de acordo com dados da A MB e do CFM. No ensino médico, essa tendência é ainda mais evidente, pois, em 2023, 61,8% das matrículas em Medicina eram de mulheres, contra 53,7% em 2010.
Apesar do crescimento, a distribuição geográfica e a qualidade da inserção profissional continuam desiguais. Há concentração de médicos em grandes centros, sobrecarga em determinadas regiões e vínculos cada vez mais frágeis, especialmente para os mais jovens.
Para finalizar, precisamos reforçar que, independentemente da fase da carreira, há princípios que devem ser permanentes. A construção de uma trajetória médica sólida passa, necessariamente, pela ética, pela ciência e pelo compromisso com a qualidade da assistência. Nenhum modelo de contrato, nenhuma estratégia de mercado e nenhuma conveniência momentânea podem se sobrepor a esses valores.
Planejar a carreira médica é, portanto, um ato de responsabilidade individual e coletiva. É compreender que decisões tomadas no início da vida profissional terão reflexos por décadas. É exigir vínculos justos, formação de qualidade, acesso à especialização e condições dignas de trabalho. E é, sobretudo, reconhecer que a Medicina não se sustenta apenas pela vocação, mas por estruturas que respeitem o médico e protejam o futuro da profissão.
Esse debate não é opcional. Ele é urgente e diz respeito a todos nós.
